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ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL

 
O AMOR ÀQUILO QUE SE FAZ
 
Por Ana Perwin Fraiman
 

Nem sempre podemos escolher onde e com quem trabalhar. Nem no quê trabalhar. Precisamos ganhar a vida e damos graças a D’us quando há uma oportunidade que nos permita viver decentemente. E decência, aqui, quer dizer "pagar as contas" dos filhos nos colégios, seus livros e uniformes, as prestações da casa própria, um bom programa, um jantar especial e, talvez férias para a família.

De vez em quando uma festa, um bom presente, um bom corte de cabelo, bons livros, remédios e seguro-saúde, roupas bem cuidadas, carro com manutenção em dia, flores e jardins, um animal de estimação, boa fragrância no ar... Não se trata de padrão, mas de qualidade.

A pessoa precisa sentir que progride com o seu trabalho. Ou, em termos de padrão, vive tão bem, ou melhor, que seus pais e que, em termos de qualidade, usufruir mais satisfação e bem estar com a vida. Para garantir o padrão, é o que o trabalho lhe permite ganhar. Para viver com qualidade trata-se de integrar seu trabalho às demais esferas do seu viver.

Enquanto o salário garante o acesso às coisas materiais, é a determinação e a disciplina que sustentam o compromisso da integridade que a pessoa alcança, para levá-la à uma vida com qualidade. Cuidados com a saúde física, sabedoria existencial e relacionamentos humanos significativos e, como substrato a tudo isso, uma vida rica em experiências de natureza espiritual.

Quando a pessoa tem esse compromisso para consigo, além de estabelecê-lo para com a empresa na qual desenvolve o seu trabalho, ela não sente separação entre o que este é e aquilo que ela é. Está integrada ao que faz. Seu trabalho passa a coordenar aquilo que sente, que pensa, que conversa. Vive o horário social de sua jornada e, mesmo, o seu sono, seu apetite, sua disposição, ficam afeitos ao mundo de seu labor.

Ela "esquece" sua existência apartada de deu universo laboral e agradece por obter tudo aquilo que ama, fruto de seus esforços, passando a amar seu trabalho. Torna-se "um" com ele.

Seus sacrifícios transcendem os aspectos materiais de sua vida e de seu próprio Ego e, nesse sentido, mergulha de corpo e alma naquilo que aprendeu a amar a partir de uma simples oportunidade inicial de trabalha. Esta é uma declaração de integridade tal que, recusa-se a separar o mundo físico do mundo mental e, além, do espiritual.

Rejeita uma vida sem trabalho, uma vida que não reflita sua essência íntima capaz de sublimar os maiores conflitos, a partir das mais difíceis condições vivenciais.é nesse sentido que o seu trabalho torna-se o seu sacro-ofício, seu modo de servir e participar da criação, mesmo que seja uma experiência diária massacrante e extenuante.

Se for obrigado a cortar a conexão entre o trabalho e o seu autoconceito e passar a viver em contradição com aquilo em que acredita e aceita ser correto, então prefere não mais viver, pois não consegue conceber uma vida que transcorra em sentido contrário à tudo aquilo em que acredita, naquilo que sustenta a sua fé, sua percepção de si e seu valor como ser humano digno.

Para ele, sua unicidade está garantida pelo seu prazer, sua identidade imbricada com o seu fazer é uma realidade palpável e não, meramente uma idéia. A dedicação plena ao trabalho levanta uma grave questão: como manter o senso de individualidade preservada, além e aquém do universo do fazer? Como levar a pessoa a se perceber como aquele que sente, pensa e realiza trabalhos, como aquele que o escolhe e articula, após anos de perceber-se somente através daquilo que levou anos a fio para aprender a fazer como o seu melhor?

Como pode, uma pessoa amar-se apartada do trabalho, quando tudo que ela conseguiu foi amar-se através dele e, com ele aproximar-se, inclusive, da fé e da gratidão a Ele por ter um trabalho e conseguir realizá-lo? E mais, como chegar a esta fé e esta entrega quando, nos tempos modernos, esse processo está sendo freqüentemente ameaçado, quando não rompido, pela expectativa de troca de emprego, de local, de relacionamentos, posições, interesses e, mesmo, necessidades?

Bem, o amor ao trabalho é diferente do amor a trabalhar. O primeiro implica em apego, à coisa, ao lugar. O segundo é o próprio ato, o gesto desprendido de participar e de criar. E amor é algo que se sente, ou não se sente. Ninguém pode nos obrigar, mos ordenar sentir algo que não condiz conosco.

É por isso que amar trabalhar vem primeiro que amar em que se trabalha, ou aquilo em que se trabalha. Quando se compreende a profunda necessidade de se realizar através do trabalho, a pessoa compreende-se como co-criador e reconhece que a obra d’Ele se manifesta em cada forma com que o trabalho se apresenta e qualquer gesto de transformação pode vir a ser inundado pelo sentimento do amor.

A compreensão da importância e do valor de participar da criação do mundo, através daquilo que está ao alcance das nossas mãos e do nosso intelecto, dá origem à emoção e à nossa consciência de contribuição e serviço.

É através de todas essas formas de participação e da disciplina que o trabalho requer, que a integração do homem com sua natureza e seu trabalho se efetua e se torna parte insolúvel de sua vida cotidiana.

Liderar ou compor-se, somente, como "mais um", ganhar muito ou, simplesmente, ganhar o pão de cada dia, ter maior ou nenhum prestígio, influir, decidir e controlar ou, humildemente, participar, nada disso altera as verdades fundamentais. As mãos humanas foram feitas para trabalhar e para acariciar. A sua mente foi feita para raciocinar, planejar e para divagar, imaginar.

O sentimento humano foi feito para amar aquilo que se faz bem feito, pelo prazer de fazê-lo e ser grato por participar da transformação de si mesmo, através da natureza dos objetos criados, dos relacionamentos e da fé em D’us.

Os homens sofrem e reclamam quando não progridem, quando não lhes é dado superar suas dificuldades e viver melhor. Querem alçar vôo, seguir atrás de seus sonhos, compartilhar experiências e descobrir novidades. Precisam ir além da mesmice dos dias e tudo isso é trabalho.

Na visão espiritual, este não pode ser considerado como algo distinto das aspirações dos homens e de sua conduta. Espiritualmente, já nascem motivados para se superar. A consciência espiritual é o instrumento, por excelência, que intensifica e amplia a experiência de trabalho na vida cotidiana e não o contrário. Não é trabalhando que o homem se eleva moral e espiritualmente. É com a fé e a gratidão que o homem eleva o seu trabalho, qualquer que ele seja.

Assim sendo, a visão ou a experiência espiritual de uma pessoa, desemboca numa conduta mais responsável e profunda. O trabalho não é um patamar para alçar novas conquistas, nem é um prazer para ser desfrutado, simplesmente. É uma parte integrante da expressão da nossa espiritualidade, tanto quanto os nossos relacionamentos, as amizades e as famílias que formamos, os demais papéis e envolvimentos que degustamos na vida social como um todo.

Quem busca, então, um trabalho digno, à sua altura, precisa ter em mente que é necessário envolvê-lo, antes de qualquer coisa, no sentimento de amor ao trabalho e, sem dúvida, será conduzindo a um envolvimento cada vez maior com a vida moral e a conduta ética, tanto no trabalho como em seu lar.

E, por outro lado, quem promove os valores familiares e as verdades morais, logo haverá de compreender os componentes espirituais dos mesmos. Haverá de perceber que, ao integrar sua espiritualidade, através do amor, ao seu labor, poderá ampliar e intensificar o seu poder de criar e divulgar sua mensagem, seja uma idéia, um produto, uma ação.

 
 

 
 
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