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CONSULTORIA EMPRESARIAL

ARTIGOS
 
SOBRE APOSENTADORIA E ENVELHECIMENTO
 
AQUI ENTRE NÓS
 
Por Ana Perwin Fraiman
 
Eu já tive e precisava de muitas coisas. Correria desenfreada para manter tudo aquilo. Viagens, negócios, recepções. Compras, carros. Filhos. Faculdades, casa na praia e suas namoradas, todos se refestelando às custas de meu trabalho.

Era muito feliz com isso. Minha esposa reclamava. Óbvio. Sempre da falta de tempo. Marcávamos hora para conversar. E, às vezes, para transar.

Assim vivíamos como casal, numa vida de grife e de sucesso. Para mim, isso era qualidade. Talvez, o fosse. Mesmo sendo uns loucos, pois é o que éramos. Mas loucos que se sentiam realizados! Era tudo pelo qual havíamos lutado. Para isso havíamos estudado. Para tanto, nossos pais haviam se sacrificado. Para que vivêssemos bem e, confortavelmente, como doutores!

Até que não deu mais. Aposentei-me, perdi meu trabalho, meu status, minha renda milionária. Fiquei velho, como todos os da minha geração já ficaram. Alguns, foram embora antes. Não tiveram que envelhecer. Que isso é difícil, mesmo. Bota difícil nisso!

Primeiro, ninguém ensina a gente. Segundo, que à hora em que a gente aprende a lidar com certas dificuldades, outras, piores, se apresentam.

Eu achava que a minha vida de executivo era difícil, cheia de desafios?! Desafio é amarrar meus sapatos! Não tenho a menor confiança na minha coluna! Vez por outra me pega e me deixa travado por dias inteiros, a danada!

Mas eu não fiquei velho de uma hora para outra, não. Não é assim que acontece. A coisa vai indo, vai indo, vai acontecendo e você, nem nota.

Não é cabelo branco, não. Nem ruga na cara. Não são os músculos flácidos, nem as pernas finas... Nem os pelos, que te abandonam...Você não fica velho quando vêm os netos. Ainda está fortão para carregá-los e, brincando, brincando, ainda paga a faculdade deles. Também não fica velho quando a sua esposa fica.

É ela que teima em fazer a gente levar agasalho e andar de guarda-chuva, mesmo em dias de sol! Ah, isso sempre foi mania dela. Fazia com os filhos, fez com os netos e agora, com você.

Você não fica velho nem quando enterra os pais. A coisa pega quando começa a chegar nos primos, nos irmãos, no seu melhor amigo... E nos seus próprios filhos. É quando você enxerga, na tua menina, uma matrona horrorosa, que nem a mãe!

Sua filha caçula virou avó! Talvez seja hora de você começar a ficar velho, você pensa. A idéia te assusta, te desgosta. Mas, também te seduz e te desafia! Taí, um negócio que você nunca fez! Legal. Muito bem, por onde é que começa? Você não sabe. Nada muda, de repente, no dia a dia.

Ok, você decidiu ficar velho e...? E...?

Passam-se mais alguns anos para que as mudanças aconteçam, para que você ache graça em brincar de esconde-esconde com a tua coluna!

Sim, são anos e anos para aprender a dar risada à toa, como na infância. Risadas dos teus erros. E dos teus acertos. Dá na mesma. É tudo experiência.

Para que serve a experiência? Para nada, a não ser contar um pouco dela, se alguém estiver disposto a ouvir. Então, é chegada a hora de saber que, para ser velho você não precisa de títulos, nem de pompas, de carros na garagem, de festas, reuniões, viagens, recepções.

Você ainda sente o paladar de um bom licor? Maravilha! Você recebe uma ligação, vez por outra, que não seja do telemarketing de um Banco? Fantástico! Você troca umas palavrinhas com sua esposa antes de dormir? Assistem televisão de mãos dadas? Já não se aborrecem com as implicações mútuas? Grande companheira! Teus filhos querem ouvir um conselho? Cuidado, não lhes dê mais de um, que eles não agüentam. E você, vira um chato. Mais chato do que sempre foi.

Você já não precisa saber a data de nascimento de todos os netos, nem mesmo o nome dos teus bisnetos? Parabéns. Então, você envelheceu!

Dá graças por um bom prato de comida, pela chuva que seus olhos assistem da janela do teu quarto? Por uma boa conversinha inesperada, uma carona gentilmente oferecida? Um braço que te ampara numa descida?

Dá graças por um abraço que te surpreende, por um beijo sem ser no dia do teu aniversário?

Dá graças por ter recebido uma boa notícia do seu médico, a respeito daquele exame...? Por alguém dizer seu nome com carinho e, de vez em quando, se lembrar de você e lhe perguntar se precisa de alguma coisa, mesmo sabendo que a pessoa perguntou só por perguntar?

Essa arte de envelhecer dando risada das próprias idiotices, de suportar ficar sozinho, esse é o maior desafio. Parece que, por toda uma vida, a gente se preparou foi para essa hora... Para poder caminhar os passos derradeiros. Caminhar por conta própria.

Até cumprir com todo o nosso Destino.

Amém.

 
 

 
 
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