SOBRE APOSENTADORIA E ENVELHECIMENTO
 
APOSENTAR A APOSENTADORIA
 
Por Ana Perwin Fraiman
 
Para enfrentar a fase da aposentadoria, a pessoa deverá estar ciente de que, não importa quão competente seja, ou quão imprescindível se considera, já passou a ocupar os primeiros lugares da fila de demissão e, uma vez fora da empresa, estará se debatendo, não só com a competitividade e os dilemas do mundo do trabalho, mas com os desafios de toda uma nova situação de vida.

É quando será, efetivamente, testado o seu Q.A. ou a sua capacidade de adaptação em situações adversas. E o que vem a ser esta capacidade?

Trata-se, somente, da diferença entre o sucesso e o fracasso na aposentadoria. E isso não significa padrão de vida, mas qualidade. Inúmeras inteligências, brilhantes no meio empresarial, se perdem nesta fase por falta de capacidade de adaptação ou baixo Q.A.

Sucesso na carreira ou nos negócios pressupõe o desenvolvimento e a aquisição de uma grande especialização de conhecimentos e atitudes. Se, por um lado isso garante um excelente desempenho no trabalho, ampliando a nossa visão e fortalecendo os processos de tomada de decisão, por outro conduz a uma espécie de cegueira quanto a outras oportunidades que desfilam a nossa frente quase todos os dias, oportunidades que não enxergamos por não estarmos nem habituados, nem motivados a busca-las.

O fato é que, por mais bem sucedido que tenha sido um profissional em seu percurso, o mundo mudou e o perfil dos mais velhos e dos mais experientes, está distante daquele que se exige hoje.

A antiga formação profissional tem pouco ou nada a ver com o que se valoriza, atualmente, no mercado: juventude, flexibilidade, domínio de línguas e de novas técnicas, especialmente a informática, disposição para mudanças – inclusive de residência, além de outros deslocamentos, criatividade e aceitação inicial para “começar por baixo”.

Agora, não só as competências profissionais estarão na berlinda, mas a personalidade e o próprio caráter. O networking, tão arduamente construído, depois de não mais do que seis meses fora de uma empresa, despenca. As novas consultorias já mencionam o netliving.

As verdadeiras amizades que se estabeleceram ao longo da vida é que vão se importar com mais alguém. Os relacionamentos movidos por interesse profissional, alimentados em torno de um cargo ou posição, mostrar-se-ão absolutamente volúveis e descomprometidos.

Essa perda de relacionamentos é um grande baque, para quem está na situação de “excluído” ou, pior ainda, “indesejável”. Uma coisa é ouvir e, se divertir, com as histórias dos outros, outra coisa é sentir na própria pele as longas horas passadas em casa, onde a presença do homem não é muito bem vinda, a não ser na qualidade do “Jaqui”, o conhecido e sempre disponível auxiliar (Já que você está aí, dá para você...?) ou como um incômodo na vida da esposa e dos filhos (Mãe, agora esse homem vai ficar por aqui, pegando no pé da gente?!). Se mulher, com certeza o resto da família vai “cair de pau” em cima: Agora é a tua vez de ficar aí cuidando...! Você nunca ajudou com nada, a não ser com dinheiro!

Após desligar-se da empresa, quando mudam as responsabilidades, quando são outros os desafios, é que a pessoa mais velha vai ver se está madura ou não para dar conta de tanta novidade! Seu positivismo, será autêntico? Conseguirá inovar e inovar-se? Estará disposta a aprender, a crescer e se aperfeiçoar ou vai acreditar que só sabe fazer aquilo que sempre fez e que já passou da idade, não vai mais mudar?!

Sim. Esta é a hora de encarar os mais complexos e difíceis desafios. Somente a Escola da Vida é que terá ensinado e, não, um diploma de Master ou PhD em qualquer área. Ter saúde e disposição para recupera-la e mantê-la, saber se relacionar com afeto e real interesse pelas pessoas e pelo vasto mundo ao redor, assumir a plena responsabilidade pelo seu futuro de mais uns vinte a trinta anos pela frente, abrir a cabeça e adquirir mais conhecimentos em muitas outras áreas, além da profissional, é tudo isso e muito mais que nos espera.

As pessoas com baixo Q.A. são as que desistem. Quantas você conhece, que ficaram velhas antes da hora, pararam no tempo, como se diz? Se deixam abater, ficam deprimidas e não procuram auxílio. Nem reconhecem que estão deprimidas! Seu nervosismo, sua irritabilidade, impaciência e desatenção passam a ser os traços marcantes de sua personalidade.

Pessoas de baixo Q.A. não exploram todo o seu potencial, acomodam-se no já conhecido de si mesmas. Sentem-se desamparadas, mas podem disfarçar seu desamparo ao ficar se metendo onde não são chamadas e querendo cuidar da vida dos outros. Adoecem mais facilmente, ficam confusas e perturbadas, perdidas nos problemas. Sentem-se humilhadas por precisar recomeçar, arquivam suas boas idéias e acampam no meio da viagem, sem explorar todo o espaço e o tempo que têm pela frente.

Se isso é aposentar-se, então, que se aposente a aposentadoria!

A alternativa é empreender uma nova jornada, onde o autoconhecimento, os principais valores de caráter e a atitude básica de solidariedade e cooperação é que vão ditar as regras do novo viver com dignidade, nessa fase em que já não se é mais jovem, mas a velhice ainda está bem longe de chegar!

Aliás, para quem quer saber, essa questão de velhice não passa de uma tremenda invenção. Mas essa é uma outra história para se contar. Por enquanto, falemos de flexibilidade emocional e intelectual e, de firmeza de caráter, enquanto matéria prima da nossa capacidade de nos adaptar. A alternativa é, então: Empreender uma nova jornada, onde o autoconhecimento, os principais valores de caráter e a atitude básica de solidariedade e cooperação é que vão ditar as regras do novo viver com dignidade.