SOBRE FAMÍLIA
 
DA SUPERPROTEÇÃO À HIPEREXPOSIÇÃO
 
Por Ana Perwin Fraiman
 

As crianças devem saber o sentir que seus pais são pessoas com quem podem abrir seu coração e, não o contrário.

A atitude de tomar o filho, ou filha, por amigo e fazer confidências sobre o relacionamento dos pais entre si, sejam questões de ordem emocional, sejam questões de ordem sexual, é uma das piores que se pode adotar.

As crianças e os jovens podem ter um desenvolvimento cognitivo, intelectual, bem avançado e trabalhar idéias bem elaboradas, mas isso não significa que tenham maturidade emocional suficiente para dar conta dos conflitos entre seus pais.

É por demais comum que os pais, na ânsia de ganhar seus filhos como aliados, abram seu coração de forma desmedida e inadequada: criticando o outro, contando segredos pessoais ou conjugais, expondo suas próprias fraquezas. Mesmo que a criança responda com sensatez e coerência, seu psiquismo ficará danificado.

Nenhum filho deve ser estimulado a tomar partido, sob o risco de ter o seu próprio coração partido. Por pior que o pai ou a mãe, tenha agido, as brigas e separações são por si só dolorosas. Não se deve botar o dedo na ferida, fazendo a criança, o jovem participar daquilo que nem deveria ser chamado a opinar.

Se os pais pudessem enxergar o cenário total, logo compreenderiam que, na sua ânsia de solucionar problemas conjugais, envolvendo os filhos, só fazem por aumentá-los, sacrificando a inocência daqueles jovens que ainda precisam ser resguardados dos dramas familiares.

Uma das maiores necessidades dos adolescentes de hoje é que os pais lhes forneçam sistemas de valores éticos e morais para guiá-los. Desesperados, em meio às brigas, anseiam por algo que lhes "mostre como viver" ou "algo a que se apegar". Precisam de uma orientação superior, ou seja, precisam sentir-se em paz consigo mesmos, e ter uma perspectiva sadia sobre como viver num mundo incerto e desconcertante.

Por isso envolver os jovens nas brigas de seus pais é dificultar que eles sintam-se verdadeiramente amados pois, intimamente, nenhum filho ou filha pode optar por um dos pais, sem sentir estar traindo o outro. E se, nos seus sentimentos, passar a sentir repulsa por um deles, é como passar a sentir nojo pela própria vida, pois seus pais, sua família é tudo que eles têm.

Virar as costas para qualquer deles trará para o jovem, como conseqüência, um tremendo ódio a si mesmo, por não ter conseguido evitar: nem as brigas, nem seu envolvimento nas brigas, nem a ambivalência em relação a todo o acontecido.

Se o pai é o agressor, o jovem ficará revoltado com ambos: com o pai, por não conseguir se conter, com a mãe, por não saber se defender, com ambos por tê-lo envolvido em seus problemas e consigo, por não ter sabido escapar.

Este ódio autodirigido está na base dos insucessos que vão além daqueles que, naturalmente, todos temos que enfrentar na infância e adolescência. Facilmente transformam-se em atitudes auto-destrutivas, ligadas ao álcool, a outros vícios e, mesmo, à promiscuidade sexual.

Silvia Helena foi uma criança esperta, de grande dotação intelectual. Seus pais, porém, insensatamente, travavam uma luta constante entre si, que terminavam aos berros e safanões, com um ou outro pai, ainda por cima, recriminando: "Olha o que você está fazendo! Está assustando a menina! Você é um animal, imbecil!"

Silvia Helena procurava se apoiar em razões lógicas e racionais. Seu brilhante intelecto permitia que ela desse sábios conselhos a seus pais, sobre como deveriam agir um com o outro e, por causa dessa sua atitude "ponderada e madura", a menina tinha sua infância seqüestrada. Chegada à adolescência, Silvia Helena não mais suportou ter-se tornado "mãe de seus pais". Teve um colapso nervoso e desenvolveu um quadro de anorexia, uma forma simbólica de seu desejo de sumir. Hoje está em tratamento e mora com a avó paterna, pessoa da família com quem se entende melhor. Seus pais? Continuam brigando, acusando-se mutuamente de terem mimado demais a menina, cobrindo-a de presentes, ainda competindo por ganhar seu afeto e atenção.

Não é possível superproteger sem hiper-expor.

Tentando poupar uma criança de problemas no futuro, muitos pais despejam nas mentes de seus filhos, todas as suas angústias e frustrações. Um dos piores conselhos "Não seja como eu, no futuro" e uma das piores advertências "Se você não fizer o que eu espero que você faça, não gosto mais de você", se combinam entre si para gerar uma bomba altamente explosiva no âmago das psiques jovens.

As crianças passam a maior parte de seu tempo observando e admirando seus pais, desejando ser como eles. Da mesma forma, na adolescência, tudo o que mais desejam é ser diferente de seus pais, ter identidade própria. Como, então, escapar desse dilema: ser tão semelhante a eles quanto desejável e ser tão diferente deles quanto tolerável?

Rebecca teve uma infância muito solitária. "Raspa de tacho", quarta filha, chegada depois de 16 anos do último irmão, foi criada como filha única. Boazinha, cordata, ninguém percebeu, porém, que seu silêncio e comedimento eram patológicos. Sua timidez excessiva contrastava com sua família ruidosa, que se referia a ela como "um doce de menina", alguém que "não dava trabalho a ninguém, se criava sozinha". E era isso, Rebecca cresceu muito sozinha.

Seu mundo de adultos não lhe permitiu que rolasse no chão, que sujasse mãos se rasgasse vestidos. Teve tudo que quis, quase nunca precisou pedir, pois seus pais e irmãos se alegravam em antecipar-se a seus desejos e necessidades. Não aprendeu, com isso, a buscar, pedir e negociar. Não aprendeu a trocar. Protegida e paparicada por todos, aquele "doce de menina" não podia se testar com outras crianças. Seus jogos eram todos por demais higiênicos e seus sentimentos foram telecontrolados.

Tanto pretendiam entendê-la e satisfazê-la que lhe disseram, até mesmo, como pensar e o que sentir. Com toda essa hiper atenção, Rebecca esteve super exposta ao vazio dentro de si: não construiu seus próprios referenciais, hoje não sabe decidir querer. Não sabe lutar pelo que precisa, tem medo de toda e qualquer forma de agressão: das mais leves provocações às maiores ofensas, Rebecca corresponde entrando mentalmente em confusão. Serão necessários anos de análise para que consiga construir e consolidar sua identidade. Rebecca tem, hoje, 42 anos de idade.

Não melhor, nem pior. Só diferente.

Esta é uma das principais tarefas vivenciais do adolescente, que precisa aprender a negociar limites e viver com disciplina. Disciplina é diferente de obediência, pois esta pressupõe prêmios e castigos, arbitrados pelos outros, enquanto aquela pressupõe gratificações e frustrações mediadas pela própria consciência e determinação.

Na obediência o jovem deixa-se subjugar pela força da vontade de seus pais, professores e, talvez, de um irmão maior. Na disciplina o jovem deixa-se levar pela sua própria força de vontade.

Jovens submetidos à obediência, tendem a mostrar-se estouvados, onde se escondem seus sentimentos de insegurança e inadaptação. Através de muitas de suas ousadas façanhas buscam tranqüilizar-se quanto ao seu próprio valor e importância. Jovens ensinados a ser disciplinados têm seus temores apaziguados pelos elogios e demonstração de confiança, por parte de seus pais e vão além: sentem-se notados e respeitados.

Uma das melhores atitudes a tomar com filhos, crianças ou adolescente é validar suas percepções, idéias e sentimentos: um palavrão, numa hora de alta frustração, pode ser tolerado. O desejo de "acabar com o outro", também, como simples expressão de muita raiva. Mas, não atirar coisas no chão ou causar danos a pessoas, não importando o tamanho da raiva ou frustração. Se fizer, terão que repor, pedir desculpas e consertar o estrago. Isso significa: vincular uma liberdade a uma responsabilidade.

Sem nenhum cheiro de chantagem, é possível subordinar algumas exigências dos adolescentes a sua capacidade de ganho. Por exemplo: o jovem deseja, ardentemente, um computador. Os pais podem propor pagar a metade. Se o jovem não tiver o dinheiro, pode-se propor que ele, ou ela, pague a sua parte com um dinheirinho que vier a ganhar no futuro, fruto de seu trabalho, ou tirando do presente que ganhar de aniversário. E não se deve voltar atrás, com "culpa" por cobrar o combinado.

Pode-se, também, confessar ignorância em certos assuntos, mas não se deve – simplesmente – delegar ao pai, à mãe, ao professore ou psicólogo, a habilidade no tratamento e enfrentamento de algumas questões complicadas. Em vez de "fale com seu pai, se ele deixar eu deixo". Conversar antes com o cônjuge e dizer: "eu e seu pai, em conjunto, decidimos que...". isso acaba com a enrolação e a falsa impressão de poder que os adolescentes têm de si, quando começam a manipular seus pais e extrair vantagens para si de ambos os lados.

Não tolerar manipulações, tanto quanto não manipular.

Há um jogo comum nas famílias disfuncionais: o pseudo-retardamento. Ou seja, no lugar de se esforçar e perseverar, a pessoa logo desiste, às primeiras dificuldades encontradas. "Ah, eu não dou para isso!" é a palavra de ordem.

Como ensinar a perseverança, quando tudo que o filho assiste é um de seus pais, ou ambos, persistir... nos seus próprios limites, sem desafiá-los.

A família deve prover incentivos à superação dos limites. Isso requer: a exclusão de qualquer forma de brutalidade, de negligência e de acomodação.

O abandono emocional e a omissão tomam forma de "longas horas frente ao computador", "madrugadas insones" e "ausências do lar, sem dar satisfação de onde se está". Seja por parte de pais, ou de filhos, este sistema traz penosas conseqüências e promove a obtusidade mental.

Quando se fala em não manipular pessoas, pais e/ou filhos, falamos em aprender a conviver. É preciso, inclusive, considerar que o cérebro humano tem a capacidade fantástica de interferir na química cerebral de outrem. É o chamado "criar clima". Desta qualidade humana decorre que: se os pais tratarem seus filhos como idiotas, a tendência é a de que eles passem a agir tal como. Ou seja, perderão em discernimento.

Da mesma forma, ser sincero nos elogios, cuidadoso e adequado nas críticas, faz com que os valores morais e dentre eles, as virtudes, como a ternura, a integridade pessoal e a coragem se fortifiquem.

Uma das coisas é dar uma bronca, ficar bravo com o que o filho, ou filha, fez. Outra coisa é ficar com raiva da criança ou do jovem, porque os pais sentiram que perderam o controle da situação.

Na maior parte das vezes, as brigas decorrem muito mais da falta de paciência e do sentimento de fracasso dos próprios pais, do que da gravidade daquilo que foi feito, ou não foi feito, pelos filhos.

Uma coisa é certa: para bem educar, é necessário se auto-educar. Em matéria de educação, o exemplo continua sendo a melhor pedida.