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ORIENTAÇÃO FAMILIAR

 
CAMINHOS PARA A CONSTRUÇÃO DA MATURIDADE E DA AUTONOMIA
 
Por Leonardo Fraiman
 

Este texto visa lançar luzes sobre algumas pistas que podem ajudar pais e educadores na importante missão de educar para a maturidade e autonomia.

Pensamos que a maturidade e a autonomia decorrem de um processo que vai se instalando na mente e nas atitudes de uma pessoa, na medida em que se internaliza uma percepção mais ampla, reflexiva e construtiva de mundo, dos fatos e de si mesmo.

Acreditamos no potencial que existe dentro de cada um de nós e nos "milagres" que acontecem quando nos tornamos verdadeiramente livres interiormente. Livres para sonhar, para ver e para fazer acontecer, criando um compromisso com nossos próprios desejos.

A liberdade, porém, sem um projeto maior, torna-se desvario. Pura perda de energia, como uma turbina de avião acionada fora de sua asa.

UMA JUVENTUDE ETERNA

Temos observado na cultura ocidental uma geração de jovens cada dia mais imatura e sem autonomia. O fenômeno é tão abrangente que já pode ser visto no filme "Armações do Amor", em que a personagem da atriz Sara Jéssica Parker (do seriado Sex and the City) tenta seduzir o "solteirão-meninão", interpretado pelo ator Mattew McConaughey, a sair da casa de seus pais, onde vive como um rei.

Hoje em dia, são poucos os que desejam sair da casa dos pais antes dos 30 ou 35 anos. Até que finalmente optem por sair, os pais devem (segundo os filhos) dar-lhes casa, comida, roupa lavada, compreensão, liberdade, mesada, privacidade (especialmente quando levarem garotas para seu quarto), não pegar no pé e aturar todo tipo de atitude.

As faculdades, preocupadas com isso chegam a fazer reuniões de pais e mestres e encontros com familiares, para que estes se conscientizem da importância de uma postura mais autônoma e de atitudes maduras – pelo menos dali em diante. Rosely Sayão, educadora e escritora da Folha de São Paulo dedicou diversas de suas colunas a esta questão. Os livros sobre limites na educação dos filhos, de Içami Tiba, tornaram-se espetaculares best sellers. As publicações com orientações estão por toda parte. Mas porque as coisas não mudam? Porque mesmo com tantas publicações a respeito do tema, a situação só vem se agravando?

Vivemos em uma cultura que dificulta o crescimento por meio da intensa oferta de bens de consumo como se estes fossem as formas mais simples para a felicidade.

Uma cultura que incentiva o sucesso rápido a qualquer preço, dentro de um contexto social que está mergulhado em um mar de mentiras e desenganos na esfera política. Observamos um desencanto geral pelas instituições.


Além disso, os próprios pais, muitas vezes, bloqueiam o amadurecimento de seus filhos com suas próprias atitudes, por vezes, também imaturas.

FILHOS QUE QUEREM TUDO PARA SI

Quando os filhos entram na universidade é que geralmente os pais caem em si. O desafio torna-se, aí sim, visível e preocupante. Como convencer uma pessoa que foi carregada em trono de ouro durante a vida toda de que agora ela deverá ir sozinha buscar o texto a ser estudado na biblioteca? Quem deverá se responsabilizar pela sua própria educação daqui em diante, pois o que aprender na faculdade em poucos anos já estará desatualizado? Como um jovem que não amadureceu irá se colocar no mercado de trabalho cada dia mais exigente e competitivo no qual, tudo muda a um ritmo avassalador?

Outro dia mesmo, assisti a uma cena chocante na recepção da minha clínica. Uma jovem de 19 anos gritava com a sua mãe dizendo que queria trocar de celular e que iria fazê-lo "de qualquer jeito". A mãe, aflita, tentava explicar que não tinha dinheiro e que não concordava com aquele gasto naquele momento. A filha simplesmente disse: - "Então vai se x#%$#$!, você é uma babaca mesmo".

A mãe, num ar de desculpa respondeu para a filha: - "Querida eu não tenho este dinheiro agora, aliás, a gente acabou de redecorar o seu quarto...", na tentativa de apelar para um suposto bom senso. A garota mais uma vez em palavras desairosas, apelou: - "Não dá mesmo! Nesta família de x#%#$# a gente não pode nada". E saiu andando. A mãe olhou para mim com certo embaraço e entramos na consulta.

Os pais hoje em dia sentem-se perdidos e confusos. Durante tanto tempo ouviram que deveriam conversar mais, ouvir os filhos, não bater, evitar traumas e dores, que acabaram chegando ao seu extremo. Crianças da quarta série já andam pela escola com seus celulares, para combinar o que irão pedir na lanchonete da escola no recreio, e até, para mandar torpedos sobre o que estão achando da aula. O que uma criança desta idade precisa falar no celular? Chegamos a um ponto de criarmos uma geração que desconhece as palavras "tempo", "esperar" e "construir". Tudo é pra já, agora, neste momento.

ACABAMOS COM O TEMPO NATURAL

Estamos acabando com a infância. Menininhas de 6 anos já se maquiam, perfumam e se vestem como suas mães (por vezes, mais sedutoras) e os garotos querem os mesmos privilégios que seus pais. Meninas de salto alto, bolsinha na mão e celular em punho. Garotos com pulseiras, colares de aço, roupas de grife e tratamentos estéticos.

Idolatramos a adolescência. Todos querem ser jovens, se vestir como tal e aparentar pouca idade. Nossa cultura não tolera o velho e faz de tudo para evitar mostrar os sinais da idade, que deveriam ser a prova de uma vida bem vivida, de dignidade pessoal, mas vem se tornando um testemunho de vil degradação e de perdas, da qual todos parecem fugir.

Assim, ninguém amadurece, ninguém perde nada, ninguém sofre à espera de nada. As crianças se tornam "jovenzinhos" cedo demais. Os jovens não saem da adolescência nunca, e os pais disputam este espaço com os próprios filhos. Não são assim tão raros, casos de homens que ficam com as amiguinhas da filha, ou de mães recém-solteiras que saem com os amigos do filho da oitava série. Como se isso fosse sinal de liberdade.

Sem referências em que se espelhar, como um filho pode crescer e amadurecer? Sem limites, como poderá tornar-se uma pessoa de bem, justa, que sabe seu lugar no mundo?

Ora, menos liberdade e mais bom senso. É disto que estamos todos precisando. Há paisque abrem mão de todo seu papel formativo, jogando na escola toda a responsabilidade. É preciso formar um elo de apoio e cooperação entre família e escola, para que juntas, possam formar as duas margens de um rio no qual o filho-aluno irá se desenvolver. Duas margens com sintonia de propósitos, complementares em suas funções, com proximidade e cumplicidade.

Divididos entre a carreira, o MBA, a academia, os amigos, o happy hour e a terapia, os pais ficam com pouquíssimo tempo para desenvolver tudo aquilo que se espera deles.A tão almejada autonomia intelectual e moral dos filhos depende de uma presença constante, segura e eficaz dos pais em suas vias.

A ENTRADA NA VIDA ADULTA

Muitos adolescentes convivem com afirmações do tipo: "depois que acabar a escola tudo fica mais complicado, a vida ficará muito mais difícil". Pode até ser uma forma de torná-los mais alertas e com isso prepará-los fazendo com que amadureçam. Mas, na prática, isso só congela os sonhos e impede ações. Na visão de seu filho a realidade se apresenta como: "não existem motivos para sair da adolescência, afinal, a vida adulta é difícil, dolorosa e decepcionante, o melhor é tentar prolongar esta etapa, para evitar o sofrimento". Faz sentido não?

Porém, quem já passou desta fase sabe que a vida adulta não se resume só em complicações. À medida que amadurece, o jovem escolhe com quem prefere estar pois passa a ter domínio de suas ações, o que é muito prazeroso, além disso defende suas convicções com argumentos próprios, é ouvido por pessoas de qualquer idade... O mundo adulto é cheio de descobertas e ganhos e os filhos precisam saber disto.

 
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