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ORIENTAÇÃO FAMILIAR

 
DEPENDÊNCIA MATERNA
 
Por Ana Perwin Fraiman
 

Bem se diz que uma moeda tem dois lados e que uma história tem no mínimo duas versões. Com relação à dependência emocional muito se tem contado em verso e prosa, o lado dos filhos. Os refrões são conhecidos: "Eles têm que aprender a se virar!" (é uma estrofe bem manjada, já!). "Eles têm que se tornarem independentes!" (outras modalidades: "pensar com a própria cabeça"; "ter opinião própria"; "fazer suas escolhas"); mais ou menos se sabe que "eles têm que desmamar!"; e mais recentemente se fala em "ter o seu espaço".

Tem até uma canção popular em que o jovem, que tem de tudo na família: amor, compreensão, dinheiro, apoio e incentivo, ele protesta: "como é que eu vou crescer sem ter com quem me rebelar?"

Daí fica parecendo que a solução (e a dissolução) dos quadros de dependência emocional está nas mãos dos jovens. Que, como tarefa de vida e crescimento, cabe à eles a transformação da relação e que aos pais (e principalmente à mãe) cabe opor resistências e sofrer os impactos da crescente independentização dos filhos. À mulher, novamente, se atribui um papel passivo nessa estória, sem que ela tem que se conformar com o crescimento dos filhos e, estoicamente, entregá-los ao mundo, não sem sentir estar sendo roubada! Aliás, ela tem que sentir-se roubada, que senão será entendida como egoísta, insensível, mamãe e portanto, "um horror de pessoa".

São os filhos que têm que cavar o seu espaço! Ela tem que aguardar o processo. Nem retardá-lo (para não se enquadrar como super-mãe), nem açucará-lo (para não se enquadrar como desalmada). Esse tem sido o enredo macabro com que nós mulheres vimos sendo contempladas nas últimas décadas.

Bem, e quando é a mulher que se rebela contra uma maternidade tempo e dedicação integral? E quando é ela que começa a sonhar viver num flat (sozinha, é claro), fazer viagem só com passagem de ida (a volta em aberto), estudar, trabalhar? Ah! Dessa que diz que é nostalgia dos tempos não vividos, que é o lamento de quem se casou cedo sem ter aproveitado bem a vida, que é menopausa, que é qualquer coisa, menos um desejo legítimo de crescimento, atual, normal e saudável!

Mas não! À mulher foi ensinado que ela deve sentir-se culpada e envergonhada à cada momento em que sequer pensar em si própria, em ter o seu espaço desocupado dos filhos, do marido, e mesmo dos pais. O espaço da mulher fica assim povoado de gente que não foi chamada e nem é bem-vindo a todo e qualquer momento como se espera.

Ela fica assim disponível para ajudar aos demais: os filhos a crescer, os pais a envelhecer; o marido a ser bem sucedido. Aprende bem como cuidar de todos, menos de si própria. Define-se somente após todos estarem bem acomodados e, então, sair pela cidade encaixando os seus horários e interesses da família. Enquanto os filhos estão na escola, ela vai fazer as aulinhas e visitas e compras, trabalho part-time, e sai correndo "bonitinha", larga tudo que lhe apraz, para choferar, servir à mesa, dar presença.

E faz tudo com desenvoltura, capricho e mesmo carinho. Está sendo uma boa mulher-menina, com aparente impressão de eficiência e competência. Se antes ela obedecia aos horários que os pais lhe impunham para voltar à casa, hoje ele obedece aos horários que a família impõe. O quadro complicou! Antes eram só dois, pai e mãe a dirigir a sua vida; (se muito, talvez também um irmão mais velho ou um mais novo que adorava "dedurar"); agora são 4 ou 5 pessoas: desde o marido que não admite chegar em casa e não encontrá-la a sua espera, até o tiraninho de dois anos de idade que tem horário de saída do mini-maternal, passando pelo de oito que não faz as lições se ela não sentar junto, pela de doze que tem festinha na pizzaria, e até pela faxineira que não tem a chave de casa.

A inteligência da mulher é gasta então, na aprendizagem condicionada de todos os horários, tarefas e percursos desse povo todo, a quem cabe-lhe supervisionar, senão dirigir! Até o momento em que os filhos crescem e a acusam: "você é uma generala!". Ai, que dor.

A mulher foi construindo assim uma noção de eu diretamente envolvida no tomar de conta de outras pessoas, e o seu "eu" fica enviesado. Ela sabe que lhe falta algo. Um algo indefinido, que incomoda, que fragiliza, que mina sua auto-estima. Entra em ansiedade. Sente-se sufocar e faz um balanço: "mas não me falta nada!". Tem marido atencioso, filhos saudáveis, boa casa, beleza, graça, dinheiro no bolso, boas roupas, bons programas, boas amigas. Queixar de que? Concluir ser mesmo uma "ingrata" e que "não se pode querer tudo na vida".

Pois sim! Nada disso a convence, pois ela continua a querer (graças a Deus!) e fica cada vez mais insatisfeita, insone, irritada. Minha gente, é o seu EU que pede passagem, que anseia por se expandir. Senão de duas uma: ou explode (e ela fica uma chata, reclamona, autoritária) ou implode (e ela vai fazer carreira de doente, obesa ou deprimida).

É o seu tempo de crescer e cavar os seu espaço! E vamos entender que aqui falamos de espaço psicológico, resultante complexa de relações sociais, físicas e ambientais, que vai formando a noção de eu, ou seja, a identidade. A coisa é séria e profunda. Vamos ver que a identidade é uma construção móvel, dada pela percepção e conhecimento do corpo, das sensações, das emoções, daquilo que a pessoa tem de própria e intransferível e que não dá nem para sentir, já que é subjetivo; e mais, a percepção e conhecimento do modo físico e social, exterior à pele da pessoa, e que é objetivo. Aí cabem os papéis desempenhados, os ambientes que se frequenta, as diferentes pessoas com quem se convive.

É na intersecção do subjetivo e do objetivo (do mundo pessoal e do mundo social) que se constitui a identidade, que nunca está pronta em definitivo, mas que tem uma estabilidade provisória. É só mudar algumas condições, sejam subjetivas (Ah!, como a pessoa se sente outra, quando está amando!...), sejam objetivas (Ah!, como a pessoa se sente perdida quando é despedida do emprego"!....), que a noção de eu, ou a identidade, precisa ser reformulada, se atualizar.

Pois bem, à medida em que os filhos vão crescendo é inevitável que o mesmo ocorra com a mulher-mãe. Se as crianças se identificam com a mãe, também esta se identifica com as crianças, é óbvio! (como é que a mãe adivinha muitas das necessidades, desejos e sentimentos dos filhos?) pelo processo de empatia e de identificação, percebe? E pelo impulso de crescimento dela.

Chega um momento em que o que está aí feito já não satisfaz, por mais bem feito que esteja. A mulher precisa de novas referências e experiências, caso contrário, sua personalidade enfraquece, ela se fragiliza, se torna impotente. Inclusive perde o apetite sexual e a curiosidade perante o milagre da vida. Envelhece mal!

É aí que os estudos e o trabalho adquirem importância capital. Ela quer sentir-se capaz de ganhar seu próprio dinheiro, de tomar decisões que envolvam somente a sua pessoa, de se libertar desse imenso NÓS que é a família e conhecer melhor o seu EU escondido, que se revela em sonhos de angústia e em dúvidas mil: "será que ainda amo o meu marido?", "eu gosto dos meus filhos, mas, será que não os tive cedo demais?!". Pode pintar aí o desejo de ter um namorado (vai descobrir um outro, vai se revelar para um outro... o que é o namoro senão um tempo de descobertas mútuas de muito prazer, de ousar, de criar e sonhar ousado), o arrependimento, a culpa, o medo de voar alto. É tempo de insegurança. O processo decrescimento envolve desmontar todo um condicionamento físico e temporal. E montar um novo.

Como é que é esse negócio de falar com homens desconhecidos? Quando se trabalha isso ocorre. Como é que é esse negócio de virar as costas sem culpa quando uma pessoa já passou das medidas? Como é dizer não sem precisar se justificar, ou dizer "sim" para um novo grupo, sair do trabalho e esquecer do horário, da família, só porque o papo estaria correndo solto e gostoso? E voltar feliz em casa, com novidades, inclusive poder dizer: "Gente, lamento o atraso e a preocupação de vocês, mas aconteceu um negócio!" e a fazer a família vibrar e rir?! Mudar o esquema de eternamente se desculpar e se sentir em falta. Construir um novo "eu"... viver?!

Dá muita mão de obra, eu sei. Ah! Como sei! Mas que é bem melhor que o tédio, isso é! E a personalidade se expande, se fortalece e a pessoa se torna mais interessante, sem qualquer sombra de dúvida. A mulher que se restringe a viver um único ambiente, ainda que satisfatório, perde a oportunidade de conhecer o esplendor dos muitos shows que a vida proporciona sempre. Ela fica submetida à apreciação de um público muito restrito, exigente e mais, deixa de desenvolver outras possibilidades. Sua noção de eu fica enviesada, como se fosse uma única verdade. Isso tanto é válido para as que só ficam em casa, como para as que só trabalham e não tem família. Ambas sentem o desejo e o medo de conhecer o outro lado, e o difícil e doloroso processo de se revelarem mais integralmente, tornarem-se complexas e não mais complexadas.
Uma personalidade em crescimento se confronta, inevitavelmente, com as suas dependências emocionais, e aí temos o outro lado da "moeda pais e filhos". Assim como a criança se desespera quando os pais saem passear, por medo de que não retornem, também os mais velhos podem se desesperar, quando os filhos saem de casa, por medo de virem a ser esquecidos e desprezados.

 
 

 
 
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