"Quando eu me vejo
nas fotografias de agora procuro pela minha
juventude. Onde está aquele sorriso largo
de menina-veneno, aquela postura segura e desafiante?
Onde estão os meus cabelos fartos, cuja
rebeldia eu levava presa num longo rabo-de cavalo?
Não. Hoje encontro um rosto sereno e
quase triste em meio a uma aura de respeitabilidade,
muito provavelmente acentuada pelos meus cabelos
brancos curtos e ralos, porém, bem assentados.
E um sulco muito profundo e escuro contornando
a minha boca, agora quase sempre fechada. Não
gosto daquilo que vejo. Gosto muito daquilo
que sou".
Muitos
idosos não gostam de rever seus álbuns,
por não suportarem bem o confronto com
as mudanças físicas ocorridas
em seu corpo e em sua aparência.
Têm
predileção por uma ou outra foto
de sua juventude, mas não apreciam as
antigas imagens, que lhes despertam saudades
e provocam sentimentos de melancolia. Saudades
de seus pais e tios, irmãos já
falecidos, dos locais já visitados e
de seus tempos idos.
Embora
guardem com zelo suas lembranças, somente
uma ou outra imagem de pai e de mãe é
mais visitada. Não é fácil
arcar com a falta dos entes mais queridos, mesmo
quando a família de hoje é presente
e cuidadosa. Quem dirá naqueles casos
em que a pessoa vive sozinha...
Quando
se pergunta para algum idoso, qual sua foto
preferida, dificilmente haverá de mostrar
uma foto de agora. Sua preferência ficou
fixada nalguma imagem de antigamente, muito
provavelmente no auge de sua idade adulta, na
casa dos trinta.
O
que perdura é a imagem de si mesmo em
seu momento melhor.
É
assim que prefere continuar a se ver no hoje,
mesmo se enxergando todos os dias no espelho.
As mudanças aconteceram, mas o que perdura
é a imagem interna de si próprio
enquanto jovem, é assim que a pessoa
se vê e quer ser vista por todos: em seu
momento melhor.
As
mudanças ocorridas são tidas como
borrões, que foram acrescidos a uma bela
figura que, esmaecida pelo tempo, conserva-se
nítida e intacta em seu coração
até agora. É interessante a sua
fala:
"Esta
sou eu", apontando uma menina, "nos
braços de minha tia-avó, na fazenda
onde meus avós moravam, no interior de
São Paulo"..."Esta sou eu,
montada numa égua mansa, presente de
meu pai quando fiz oito anos". Segue apontando.
"Esta sou eu, na minha festa de quinze...
Minha prima Helena, minha amiga Valquíria.
Ah, e este foi meu primeiro namorado! Ah, aqui
estou eu, com a minha turma do secretariado.
Veja que beleza de moça, eu era. Aqui
estamos, eu e minha irmã, numa viagem
que fizemos à Roma. E aqui estou eu,
em Buenos Aires, com o casaco que comprei com
o meu primeiro ordenado! Ah, aqui estou eu,
de novo, vestida de noiva... Agora, entrando
na igreja com o meu pai..."
Essa
fala vem vindo pelos tempos até seu casamento,
quando então passa a apontar mais amiúde
as pessoas de sua família:
"Esta
é a minha primeira filha, na maternidade.
E esta, no dia em que dançou quadrilha
pela primeira vez na escola! Esse é meu
filho, quando entrou para fazer CPOR. Ah, esta
é a namorada dele, não com quem
ele se casou. É outra. Ah, está
aqui, esta é a minha nora, magrinha,
magrinha. E este é o pai do meu genro.
Meu netinho, não é uma beleza?
Agora está com dezessete anos! Minha
neta, no seu baile de debutante. Este é
o namoradinho dela. A mãe dele. Uma bela
senhora".
"Eu?
Você está querendo saber de ‘eu’?
Eu, não importo, deixa lhe mostrar as
fotos da minha família. Eles é
que interessam... Eu, não, já
estou velha."
Em
meio aos retratos de família, sua pessoa
vai desaparecendo das suas referências
e assinalamentos, como se deixasse transparecer
a perda de sua importância em meio a todos
eles. Seria esta uma atitude genuinamente altruísta
ou um auto-desmerecimento que transparece ao
lidar com os álbuns de família?
Uma
coisa é certa: quando somos jovens não
temos a menor capacidade de ceder vez aos outros.
O mundo gira em torno de nós mesmos,
de nossos desejos, de nossos sentimentos. Nosso
pai é nossa propriedade. Nossa mãe
é nossa extensão. Embora não
saibamos como poderíamos viver sem eles
e a simples idéia de que isso possa vir
a ocorrer um dia nos coloca em desespero, o
fato é que eles estão lá
para nos servir.
Quando
crescemos e passamos a ter a nossa própria
família, sentimos os filhos como sendo
nossos, um presente dos céus para cuidarmos.
E nossos pais são aqueles com quem contamos,
em quem nos apoiamos para zelar pela nossa prole
e são os pequenos que passam a ocupar
em nossas mentes o primeiro lugar.
Se
antes não sabíamos como viver
sem os nossos pais, agora começamos a
suportar melhor essa idéia, mas sabemos
que enlouqueceríamos se nos tirassem
nossos filhos.
Chega-se
a um ponto em que muitos acabam, realmente,
por passar pela maior dor do mundo, a dor de
perdê-los e, ainda assim, sobrevivem.
Passado um tempo, revivem.
Começamos
a perceber, então, através de
experiências próprias e através
de nossos sentimentos solidários às
dores e as alegrias alheias, que o ser humano
é muito forte e resistente e que, com
a idade, longe desta força se exaurir,
ela redobra. Em palavras muito simples "a
gente extrai forças, nem se sabe de onde!".
A
família é o palco onde os maiores
dramas vivenciais são representados.
Com
certeza, a família é o palco onde
os maiores dramas vivenciais são representados.
E nada melhor do que a família para nos
ajudar a construir um caráter muito forte
e confiável.
Parte
deste caráter, desta fortaleza interior
se traduz pelo aprendizado dos papéis
e das funções que desempenhamos
em família. Passar do estágio
em que acreditamos ser o centro do mundo para
o estágio em que sabemos ser somente
“mais um” no mundo é um feito
notável, que nem todas pessoas conseguem.
Se,
de início nossa sobrevivência emocional,
além, de material é totalmente
dependente de nossos pais e, mais tarde, passamos
a ser quase que totalmente dependente, emocionalmente,
dos nossos filhos, ao envelhecermos, nossa sobrevivência
emocional passa a ser dependente das nossas
próprias forças e crenças,
diretamente conectadas com a nossa espiritualidade.
Ao
envelheceremos, não há mais motivos
externos a nós, que justifiquem os nossos
esforços. Não temos mais a quem
obedecer, nem agradar. E não precisamos
mais servir de apoio, nem de exemplo para ninguém.
Não
há nada a nos inspirar continuar, a não
ser o nosso próprio propósito
de viver, a descoberta do valor da vida. Isto
não significa negar o valor e a importância
da família e dos nossos relacionamentos,
muito pelo contrário.
Significa
sair de uma posição egocêntrica
para uma posição altruísta
genuína. Aqui, podemos "sair de
lado", não porque a gente se sinta
diminuída e menos interessante, mas porque
desenvolvemos um gosto especial por observar,
por acompanhar, por ser solidário.
Trata-se
de uma nova forma de participar, sem que seja
preciso ficar provando valor a toda hora, nem
ficar disputando os méritos de tudo.
Antes, eles eram nossos. Agora, passamos a ser
deles.
Então,
quando um idoso nos mostra seu álbum
de família e diz: "Eu? Não
importa, já estou velho. Olhe para os
meus", isso não significa, necessariamente,
que se sinta diminuído ou que sua auto-estima
esteja em baixa. Pode ser, justamente, o contrário.
Pode
ser que esta pessoa esteja nos dizendo que se
sente importante por pertencer a uma rede maior,
que sabe apreciar o que os demais têm
de bom e de bonito. E que não mais deseja
ser o foco das atenções. Já
não precisa sentir-se o mais importante,
porque sabe que cada qual tem seu próprio
valor. Importância se tira e se dá.
Valor é aquilo que a pessoa demonstra
ser.
Conservará,
no entanto, em sua memória, o gosto peculiar
de suas conquistas pessoais, do seu tempo de
juventude plena, o sabor de um poder especial,
provado num tempo em que acreditava que o mundo
estava a seus pés. Tinha beleza, tinha
juventude, tinha sonhos e muita coragem. Será
esta a imagem que conservará de si, através
de uma foto preservada com cuidado e com carinho:
seu momento de muito orgulho de si próprio.
Ela
haverá de ceder espaço ao orgulho
pela família que criou onde, neste momento,
passou a ser só mais um alguém
a apoiar a juventude que se renovou e da qual
não mais faz parte.
É
essa imagem de juventude que procura em seu
rosto físico e não mais encontra,
mas na qual se fia, quando seu olhar se dirigir
para dentro, para a pessoa que se tornou: "Não
gosto do que vejo nas fotos e no espelho, mas
gosto muito de ser quem sou".