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CONSULTORIA EMPRESARIAL

ARTIGOS
 
SOBRE APOSENTADORIA E ENVELHECIMENTO
 
INTELIGÊNCIAS MAL APROVEITADAS
 
Por Ana Perwin Fraiman
 

Nunca se falou tanto da necessidade de cuidar do capital intelectual.
Nunca se exigiu tanta formação para o exercício profissional.
E nunca se viu tamanho contingente de profissionais competentes, lutando de forma tão pouco inteligente para preservar o seu espaço profissional.

Uma coisa é a vontade de trabalhar. Outra coisa é preparar-se para isso e, ainda outra, fazer por encontrar as oportunidades que realizem as pessoas, profissional e pessoalmente.

Os estímulos e incentivos que são oferecidos aos jovens, desde a adolescência, em relação à sua realização pessoal vão-se estreitando, como num funil. Praticamente tudo acaba convergindo para a escolha e o preparo profissional, pois é aquilo que dele se espera, no sentido de organizar-se para ganhar seu próprio sustento e conseguir fazer e sustentar sua própria família.

Ainda que uma boa parte dos jovens não queira trabalhar, pois gostaria de estender sua liberdade e quase ausência de responsabilidade, tanto as famílias, como a grande sociedade e os discursos políticos pressionam os jovens para que façam seus estudos e adentrem o mercado de trabalho, sem o que não haverão de granjear respeitabilidade e confiança dos demais.

O ganho de uma identidade funcional e os acessos que daí advêm acabam por embalar os jovens em seus esforços de carreira, ainda incipientes, conferindo-lhes orgulho de si próprios e vontade de vencer.

A sua preparação leva alguns bons anos, que custam muito caro e se estendem mais e mais, conforme as expectativas e capacidades que têm ou buscam ter, nos primeiros anos de suas vidas como profissionais. Quando há trinta anos atrás se começava a trabalhar antes de cursar uma faculdade, agora mal se consegue emprego, mesmo depois de concluída uma especialização.

Quanto aos adultos, estamos divididos em dois grandes grupos: os que estão assoberbados de trabalho e aqueles que não conseguem espaço no absolutamente competitivo mercado de trabalho.

As distâncias entre os que vêm de famílias sólidas e bem constituídas, têm melhor formação e melhores oportunidades, estão cada vez maiores em relação a aqueles que perdem seus empregos, não têm "fôlego financeiro" para enfrentar uma crise ou uma entressafra e não têm estrutura familiar de suporte.

É bastante conhecido o efeito devastador que a perda de um emprego acarreta para a vida conjugal e familiar. Além do abalo na auto-estima e auto-confiança, que resulta em perda de saúde e de autoridade, seja um adulto jovem, seja ele mais velho.

Fica pior, porém, quando o mercado é preconceituoso e atua na seleção de profissionais discriminando, negativamente, aqueles que estão acima do peso e são gordos, aqueles que fumam, aqueles que são carecas e usam bigode e, nos últimos tempos, aqueles que estão perto dos quarenta anos.

Quarenta anos é a idade de corte na contratação de novos profissionais. Com exceções, é claro. Quem dirá aqueles que já estão na faixa dos cinqüenta/sessenta e não têm as novas especializações para agir em seu favor e têm que concorrer à mesma vaga com uma geração mais jovem, mais agressiva e mais disposta a ganhar menos!

Um dos maiores pânicos que se instalam em relação ao futuro, é a perda do emprego e, com ela, a capacidade de honrar os compromissos. Com isso, muitos sentem-se impedidos de adquirir seus bens imóveis e sofrem por antecipação com a real e cada vez mais próxima possibilidade de não conseguir arcar com as despesas de filhos nas faculdades.

Pais e mães adultos, com filhos adolescentes, ainda recorrem à ajuda de seus pais que começam, por seu turno, a ter que enfrentar as questões da aposentadoria.

Para os mais velhos, o que se acena é a perda de status, de capacidade de aquisição, de vazio ocupacional, de indefinição de pessoa. A identidade funcional, tão arduamente conquistada e consolidada por longos anos de exercício profissional, agora terá que ceder espaço à construção de uma identidade pessoal autônoma.

O que levou décadas para se construir, em poucos meses haverá de se dissolver e, isso, sem qualquer apoio das instâncias sociais e, mesmo, com a perplexidade das famílias que não sabem como agir com aquele que volta ao lar. Ainda que o governo fale em incentivos à aposentadoria, no recém aprovado Estatuto do Idoso, não há incentivos fiscais, não há incentivos sociais.

Há incentivos morais, se e quando uma empresa compreende o impacto da aposentadoria na vida social do nosso País e assume sua parcela de responsabilidade social na condução das demissões pós-aposentadoria, aplicando programas de preparação para uma vida ativa após.

Essa tem sido uma das maiores contribuições para a condução de um processo de desligamento profissional feito de forma digna e transparente, que vai se refletir positivamente, com toda certeza, na reestruturação de vida e de identidade que os funcionários e colaboradores mais velhos, ao se desligarem da empresa, haverão de precisar fazer.

É a oportunidade dos mais velhos pensarem em novos caminhos, de se redescobrir como pessoas, não havendo nada de mais útil à vida social, do que aqueles que sentem-se bem em sua própria pele, sabem o que desejam, o que podem e ainda sonham em conseguir mais. Pessoas entusiasmadas com a vida e agradecidas pelas suas oportunidades e, não, pessoas infelizes, os "ex" de alguma posição.

Quem, em sã consciência, é feliz em se definir funcionalmente, como aposentado que não faz nada na vida? Quem é feliz ao não conseguir descobrir para o que serve, além de haver trabalho e se doado por inteiro àquilo que sempre fez e para o que, agora não é mais bem vindo ou necessário?

Numa empresa no ramo de varejo a que prestamos consultoria, um dos mais altos executivos se pronunciou:

"Quando fui convidado a participar deste programa, eu não gostei. Fiquei muito contrariado. Quando compareci e assisti às primeiras palestras, fiquei muito irritado. Mas confio na empresa e permaneci. Mesmo agora, decorridos uns poucos meses, continuo vindo e não gosto, nada, nada, de ouvir aquilo que vocês dizem lá dentro. Fico bravo, porque não gosto de penar em mim fora desta empresa. Ainda não consigo me imaginar fora. Mas, depois que tudo isso começou e eu fui ouvindo, ouvindo e pensando, tremo nas bases só de pensar que eu poderia ter sido um dos milhares que se aposentam sem nenhum tipo de preparação, que não têm as oportunidades que nós, aqui, estamos tendo, de sentar e discutir aquilo que importa. Eu teria sofrido o maior baque! Não sei sequer se meu coração haveria de agüentar, o dia que meu chefe, à seco, viesse a me chamar e me dissesse "Olha, obrigado, mas a gente não precisa mais de você aqui. A partir de amanhã você não precisa vir mais"! Então, eu não gostei de ter sido chamado e não gosto de muito daquilo que eu ouço vocês falarem, mas alguém tem que falar com a gente, fazer o que vocês fazem: preparar. E ainda não me vejo fora daqui, ao menos vocês estão me ajudando, a mim e a meus colegas, a abrir frestas para uma outra vida e descobrir que ainda há vida depois da aposentadoria, fora desta empresa. Obrigado. Me entenda bem, no fundo, no fundo, estou agradecendo pelo programa, pela oportunidade. Quem disse que a gente não precisa ouvir?! Porque a gente pensa que sabe, mas quando chega a vez da gente, a gente não quer saber... Quer fugir, quer se esconder. Por isso, obrigado, mais uma vez."

 
 

 
 
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