Nunca se falou tanto da
necessidade de cuidar do capital intelectual.
Nunca se exigiu tanta formação
para o exercício profissional.
E nunca se viu tamanho contingente de profissionais
competentes, lutando de forma tão pouco
inteligente para preservar o seu espaço
profissional.
Uma
coisa é a vontade de trabalhar. Outra
coisa é preparar-se para isso e, ainda
outra, fazer por encontrar as oportunidades
que realizem as pessoas, profissional e pessoalmente.
Os
estímulos e incentivos que são
oferecidos aos jovens, desde a adolescência,
em relação à sua realização
pessoal vão-se estreitando, como num
funil. Praticamente tudo acaba convergindo para
a escolha e o preparo profissional, pois é
aquilo que dele se espera, no sentido de organizar-se
para ganhar seu próprio sustento e conseguir
fazer e sustentar sua própria família.
Ainda
que uma boa parte dos jovens não queira
trabalhar, pois gostaria de estender sua liberdade
e quase ausência de responsabilidade,
tanto as famílias, como a grande sociedade
e os discursos políticos pressionam os
jovens para que façam seus estudos e
adentrem o mercado de trabalho, sem o que não
haverão de granjear respeitabilidade
e confiança dos demais.
O
ganho de uma identidade funcional e os acessos
que daí advêm acabam por embalar
os jovens em seus esforços de carreira,
ainda incipientes, conferindo-lhes orgulho de
si próprios e vontade de vencer.
A
sua preparação leva alguns bons
anos, que custam muito caro e se estendem mais
e mais, conforme as expectativas e capacidades
que têm ou buscam ter, nos primeiros anos
de suas vidas como profissionais. Quando há
trinta anos atrás se começava
a trabalhar antes de cursar uma faculdade, agora
mal se consegue emprego, mesmo depois de concluída
uma especialização.
Quanto
aos adultos, estamos divididos em dois grandes
grupos: os que estão assoberbados de
trabalho e aqueles que não conseguem
espaço no absolutamente competitivo mercado
de trabalho.
As
distâncias entre os que vêm de famílias
sólidas e bem constituídas, têm
melhor formação e melhores oportunidades,
estão cada vez maiores em relação
a aqueles que perdem seus empregos, não
têm "fôlego financeiro"
para enfrentar uma crise ou uma entressafra
e não têm estrutura familiar de
suporte.
É
bastante conhecido o efeito devastador que a
perda de um emprego acarreta para a vida conjugal
e familiar. Além do abalo na auto-estima
e auto-confiança, que resulta em perda
de saúde e de autoridade, seja um adulto
jovem, seja ele mais velho.
Fica
pior, porém, quando o mercado é
preconceituoso e atua na seleção
de profissionais discriminando, negativamente,
aqueles que estão acima do peso e são
gordos, aqueles que fumam, aqueles que são
carecas e usam bigode e, nos últimos
tempos, aqueles que estão perto dos quarenta
anos.
Quarenta
anos é a idade de corte na contratação
de novos profissionais. Com exceções,
é claro. Quem dirá aqueles que
já estão na faixa dos cinqüenta/sessenta
e não têm as novas especializações
para agir em seu favor e têm que concorrer
à mesma vaga com uma geração
mais jovem, mais agressiva e mais disposta a
ganhar menos!
Um
dos maiores pânicos que se instalam em
relação ao futuro, é a
perda do emprego e, com ela, a capacidade de
honrar os compromissos. Com isso, muitos sentem-se
impedidos de adquirir seus bens imóveis
e sofrem por antecipação com a
real e cada vez mais próxima possibilidade
de não conseguir arcar com as despesas
de filhos nas faculdades.
Pais
e mães adultos, com filhos adolescentes,
ainda recorrem à ajuda de seus pais que
começam, por seu turno, a ter que enfrentar
as questões da aposentadoria.
Para
os mais velhos, o que se acena é a perda
de status, de capacidade de aquisição,
de vazio ocupacional, de indefinição
de pessoa. A identidade funcional, tão
arduamente conquistada e consolidada por longos
anos de exercício profissional, agora
terá que ceder espaço à
construção de uma identidade pessoal
autônoma.
O
que levou décadas para se construir,
em poucos meses haverá de se dissolver
e, isso, sem qualquer apoio das instâncias
sociais e, mesmo, com a perplexidade das famílias
que não sabem como agir com aquele que
volta ao lar. Ainda que o governo fale em incentivos
à aposentadoria, no recém aprovado
Estatuto do Idoso, não há incentivos
fiscais, não há incentivos sociais.
Há
incentivos morais, se e quando uma empresa compreende
o impacto da aposentadoria na vida social do
nosso País e assume sua parcela de responsabilidade
social na condução das demissões
pós-aposentadoria, aplicando programas
de preparação para uma vida ativa
após.
Essa
tem sido uma das maiores contribuições
para a condução de um processo
de desligamento profissional feito de forma
digna e transparente, que vai se refletir positivamente,
com toda certeza, na reestruturação
de vida e de identidade que os funcionários
e colaboradores mais velhos, ao se desligarem
da empresa, haverão de precisar fazer.
É
a oportunidade dos mais velhos pensarem em novos
caminhos, de se redescobrir como pessoas, não
havendo nada de mais útil à vida
social, do que aqueles que sentem-se bem em
sua própria pele, sabem o que desejam,
o que podem e ainda sonham em conseguir mais.
Pessoas entusiasmadas com a vida e agradecidas
pelas suas oportunidades e, não, pessoas
infelizes, os "ex" de alguma posição.
Quem,
em sã consciência, é feliz
em se definir funcionalmente, como aposentado
que não faz nada na vida? Quem é
feliz ao não conseguir descobrir para
o que serve, além de haver trabalho e
se doado por inteiro àquilo que sempre
fez e para o que, agora não é
mais bem vindo ou necessário?
Numa
empresa no ramo de varejo a que prestamos consultoria,
um dos mais altos executivos se pronunciou:
"Quando
fui convidado a participar deste programa, eu
não gostei. Fiquei muito contrariado.
Quando compareci e assisti às primeiras
palestras, fiquei muito irritado. Mas confio
na empresa e permaneci. Mesmo agora, decorridos
uns poucos meses, continuo vindo e não
gosto, nada, nada, de ouvir aquilo que vocês
dizem lá dentro. Fico bravo, porque não
gosto de penar em mim fora desta empresa. Ainda
não consigo me imaginar fora. Mas, depois
que tudo isso começou e eu fui ouvindo,
ouvindo e pensando, tremo nas bases só
de pensar que eu poderia ter sido um dos milhares
que se aposentam sem nenhum tipo de preparação,
que não têm as oportunidades que
nós, aqui, estamos tendo, de sentar e
discutir aquilo que importa. Eu teria sofrido
o maior baque! Não sei sequer se meu
coração haveria de agüentar,
o dia que meu chefe, à seco, viesse a
me chamar e me dissesse "Olha, obrigado,
mas a gente não precisa mais de você
aqui. A partir de amanhã você não
precisa vir mais"! Então, eu não
gostei de ter sido chamado e não gosto
de muito daquilo que eu ouço vocês
falarem, mas alguém tem que falar com
a gente, fazer o que vocês fazem: preparar.
E ainda não me vejo fora daqui, ao menos
vocês estão me ajudando, a mim
e a meus colegas, a abrir frestas para uma outra
vida e descobrir que ainda há vida depois
da aposentadoria, fora desta empresa. Obrigado.
Me entenda bem, no fundo, no fundo, estou agradecendo
pelo programa, pela oportunidade. Quem disse
que a gente não precisa ouvir?! Porque
a gente pensa que sabe, mas quando chega a vez
da gente, a gente não quer saber... Quer
fugir, quer se esconder. Por isso, obrigado,
mais uma vez."