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CONSULTORIA EMPRESARIAL

ARTIGOS
 
SOBRE O UNIVERSO DO TRABALHO E DAS ORGANIZAÇÕES
 
FOI PARA ISTO QUE EU ME LIBEREI?
 
Por Ana Perwin Fraiman
 

Assim que acordo.

Percebo que estou de mal-humor, porque eu não acordo. Sou acordada. Vilmente arrancada de meu sono profundo, por dois despertadores e um rádio-relógio que jamais conseguem sincronizar os TRIM – BIP – BIP – TRIM e a voz escandalosa do locutor: "Bom dia, minha gente!"

Eu"aceno"de"levinho"com"a cabeça, para conferir se hoje ela vai doer logo cedo, ou se vai demorar mais um pouco.

Meu corpo pede para se espreguiçar na cama, enquanto eu já vou fazendo exercícios vigorosos para espantar o sono e erguer a coluna. Afinal é mais um dia de trabalho e eu a-do-ro trabalhar.

Meu pessoal dorme. Parece que sou só eu a ser contemplada pela disposição para enfrentar o dia. Isso me irrita, porque além de trabalhadora faço as vezes de despertador-da-família e ninguém, mas ninguém reconhece isso.

Pelo contrário, eu chego de mansinho e sussurro: "Filha, está na hora..." e ouço de volta: "Pó, mãe, precisa gritar desse jeito?!" Mas, quem é que gritou? Tenho vontade de deixar todo mundo perder hora, mas desconfio de que isso não será nenhum castigo, muito pelo contrário. Com toda desculpa do mundo, eles irão para o clube e eu vou achar que estou criando uns delinqüentes!

Decido que vou comprar uma buzina e "fonfonar" na cabeça deles, amanhã mesmo. Todos, os oito despertadores agora tocam, inclusive o da empregada, e a reação que vejo é a de resmungos, ouvidos tapados pelos travesseiros, como se fosse eu que estivesse incomodando.

Não encontro o cafezinho preto pronto à minha espera. Morro de raiva e de inveja da minha "secretária do lar", mas engulo tudo (porque preciso dela) e, gentilmente, bato à sua porta e escuto: "Ai, Dona, perdi a hora, né? Não posso levantar. Passei uma noite horrível, preocupada com os meus filhos, umas cólicas, estou com a boca amarga..."

Respondo: "Peraí, que eu te trago uma aspirina e um café." Meu coração bate acelerado e a minha dor-de-cabeça matinal se instala.

Volto para o meu quarto, tensa, imaginando como é que seria a minha vida num Flat, já bem acordada pela adrenalina que se esparramou pelo meu corpo. A família já está de pé e o meu marido ocupou o banheiro". Quinze minutos se passaram e só tenho mais quinze para sair de casa.

Procuro pela "roupa adequada". Tenho dezenas de peças e raramente acerto vestir aquela que me dará o conforto necessário. É quase como acertar na loto. As duas ou três que agüentam as viradas do tempo já estão muito manjadas. As demais... vivo passando frio, ou calor. Como é que se vai saber que tempo vai fazer.

Os escritórios deveriam ter um vestiário para a gente se trocar, tomar banho, se aliviar... Ai, meu Deus, enquanto vou pegando as peças, combinando brincos e sapatos, a dor de barriga aumenta. O tempo passou e eu só posso agora: ou caprichar no visual ou deixar a lista das tarefas do dia e os cheques preenchidos para os fornecedores, ou tomar meu café da manhã ou me trancar no banheiro... E desejar que a fechadura se quebre e eu não possa sair de lá por dois dias, recebendo revistas e comida pela janelinha!

Os filhos já estão no carro, meu marido me dá as "instruções verbais" para o dia e a empregada começa a se coçar, me pedindo a tarde de folga, sei lá para quê. Eu dou. Eu dou tudo! Desde que ela não vá embora nessa fase (Em que pese que eu seja humanista, neste momento desejaria revogar a Lei do Ventre Livre!).

Como mulher, afinal, tenho que respeitar suas preocupações maternais e as suas cólicas menstruais. Sorte dela que pode descansar, enquanto eu tenho que marcar ponto e sorrir, sorrir sempre, mesmo que queira rosnar. O café dela ninguém controla. O meu é cronometrado. Só dois por dia, que é tempo de contenção de despesas na firma. Água eu posso beber à vontade. Da torneira.

Enquanto vou colocando meu lanche, milhas pinturas, minha malha e guarda-chuva, tudo numa bolsa muito pesada, ouço as reclamações: "Mãe, ‘cê ta atrasada", "Querida, ‘cê precisa chamar a atenção da empregada que a camisa amarela está sem botão", "Dona, pede pras crianças não trazerem os amigos hoje, que não vai dar pra arrumar a sala e fazer o almoço... "Mãe, eu já combinei com eles que a gente vai fazer trabalho em grupo", "Meu bem, precisa comprar colírio... a pasta de dentes está no fim... a carne acabou... precisamos economizar gasolina... telefone... desperdício... tempo... buscar sapato no conserto... reunião na escola..."

Bendita dor-de-cabeça que não me deixa ouvir mais nada! Eu só faço que sim, e partimos. Vou comendo meu sanduíche e fazendo maquilagem no espelhinho do carro. Entre uma brecada e outra cuido dos olhos e do batom. Tenho uma sensação íntima de ser super mulher. Afinal, este é um dia comum. Mais, que diabo! Por que é que cada um não cuida das suas coisas, faz suas pequenas compras, lava seus próprios pratos e cuecas?

Sinto vontade de voltar para a casa da minha mãe. Só que estou indo para uma reunião com os chefes da empresa, apresentar uma proposta revolucionária que beneficiará a todos nós. Sinto muito medo. Essa eu não posso perder. Dela dependem várias famílias. No "tchau-tchau", um desce do carro aqui, outro ali, vou me aproximando do escritório. Um beijo no rosto do meu marido, que me diz com olhar grave e sério: "Temos que ter mais tempo para nós. Esta noite eu te procurei e você ... nada! Sempre cansada..."

De novo, deixo de escutar e só respondo "É. Depois a gente se fala, ta?" Um depois que nunca acontece, porque quando não sou eu, é ele quem desaba, no meio da novela. Fim-de-semana? Ou vamos para o Guarujá e ninguém quer falar de coisas sérias, ou tem filhos, sogros e amigos no meio. Nunca dá pra parar. E quem é que quer parar?

No escritório.

Agora começa o meu dia de trabalho remunerado. Foi por isso que eu tanto lutei. Respiro fundo e me concentro no serviço, não sem antes reparar que minhas unhas estão descascadas. Puxo a gaveta e pego a acetona. Afinal, serão vários pares de olhos focalizados na minha pessoa e tenho que fazer jus a uma imagem de sucesso. Detalhes bem cuidados ajudam a gente a se impor. Já temos que "falar grosso", não podemos ter "ar de lavadeira".

Vejo com carinho essa minha primeira gaveta da escrivaninha. Aí eu guardo minhas perfumarias, agulha e linha, bilhetinhos, lacinhos, remédios, lembranças e uma série de coisinhas inúteis, que atestam a minha futilidade. Imagino o que pode ter na primeira gaveta do meu chefe. Sempre achei que seriam documentos importantes. Ou... um revólver... dólares. No mínimo a fotografia de sua atual amante.

Tenho a idéia de que os homens são sempre racionais. Afinal, dificilmente têm essas crises histéricas que acontecem entre as mulheres. Uma porque está grávida sem querer, outra porque a filha dormiu fora, outra porque a mãe está doente, outra porque o marido tem outra, e a última, porque passou o domingo sozinha. Daí ter sempre alguém com os olhos vermelhos de choro e o nariz fungando, se queixando de dores e... atrapalhando o nosso trabalho.

Tenho o maior ódio quando me flagro sendo "boazinha" e desculpando os erros dessas mulheres que trazem a sua vida doméstica, particular para dentro do escritório. E o faço por também ser mulher e ter dificuldade em "mandar". (Nesse momento o telefone toca e é a minha empregada avisando que não vai trabalhar mesmo, só vai sair à tarde).

Parece que o cargo que ocupo deveria ser de um homem. E me pergunto mil vezes se não estarei deixando de ser feminina quando exerço autoridade e faço valer minhas atribuições. (Deveria tê-la impedido de sair? Afinal na minha casa eu não mando mais?!)

Ser autoritária em casa é uma coisa. Isso eu tiro de letra. Tiro nada. Tirava. Quando eu estava ... Mas no trabalho? Já me disseram que eu pareço um homem de sais. Poucas coisas me magoaram tanto. Quando um superior meu é compreensivo eu penso: "Que beleza de homem.

Quanta humanidade!" Eu mesma, tenho dúvidas sobre quando estou sendo humana e quando estou sendo "entreguista". Beleza de educação essa, em que menino não chora e menina não pode brigar! Está tudo na minha cabeça, hoje. Só que, a cada vez que me pego brigando, impondo, tenho medo de ser rejeitada: ou é porque estou me "masculinizando", ou é porque estou "naqueles dias" e não consigo me controlar! Que sufoco.

Raramente eu vejo um homem se desabafando, e mesmo assim ele o faz com pudor. Se nervosos, no ambiente de trabalho, quando muito ficam é mais autoritários, calados, distantes, esbravejantes. Nós mulheres, não. Parece vivermos num eterno galinheiro com mil fofocas, ti-ti-tís. Não que isso nos alivia, também. É bom poder chorar em público. Além do que, é uma boa arma para se usar, quando a gente não sabe o que fazer...

Ao cair da tarde.

Apresentei meus trabalhos e saí da reunião com ares de Pomba-Mor. Peito estufado, exultante. Não sentia nem mais a dor nos pés apoiados precariamente num sete-e-meio. Lembrei-me do meu primeiro namorado, de quando estudávamos química e ele me disse: "Puxa, você tem cabeça de homem!".

Foi o máximo que ele conseguiu dizer para me elogiar. Senti que havia algo de errado naquilo, mas deixei pra lá. Eu mesma achava que mulher-muito-inteligente e homem-muito-bonito eram desperdícios da natureza...

Percebi estar sendo cumprimentada, admirada e invejada. Senti orgulho e muito medo. Sempre medo. Como estaria a minha aparência, despenteada, com a pele oleosa? Nos filmes as executivas terminam essas reuniões com cara de quem está indo para uma festa. Eu tenho a péssima mania de passar a mão nos cabelos, borrar a maquilagem, tirar os brincos. Fico exatamente como o meu marido, que chega em casa desalinhado, com a gravata no bolso, os punhos dobrados, cheiro de suor. Ai, falta um contra-regras na minha vida!

Chamou-me a atenção ter recebido tapinhas nas costas. Que coisa mais inócua! E se, ao invés disso, meu chefe tivesse alisado meus ombros?! Pasme. Quero fugir dali e voltar para o aconchego do meu lar.

Mas antes devo passar no supermercado, batalhar por um táxi, telefonar para saber da minha mãe que foi ao cardiologista, comprar presente para a namorada do meu filho, cancelar a visita a um casal de amigos, escrever uma carta. Deus meu! E o jantar? O pessoal já está entupido de pizzas e hamburguers. Hoje será uma sopa pronta e omelete. Dane-se. Ninguém está desnutrido, oras.

Mas dói, dói na alma quando nos sentamos à mesa e eles debocham "Mãe, esta casa está uma fartura! Farta tudo". Eu me sinto a mais reles das donas-de-casa. Eu que me dizia: "Nem que eu ganhe só para pagar uma empregada, em casa eu não fico!", agora vejo que não é muito mais que isso que eu ganho, pois tudo me sai mais caro: desde os táxis (pois vivo atrasada), às compras de roupas (pois não tenho tempo de procurar), até os 20 a 30% de custo a maior nas despesas gerais da casa! Quem é que pode rodar atrás das ofertas? Vou gastando e comprando no caminho...

Ah, doces tempos em que eu tinha o hábito da leitura, minha ginástica, o papo esticado ao telefone. E me mordia de inveja das trabalhadoras do Brasil. Medo e inveja. A galinha do vizinho é sempre melhor.

Quando vou dormir.

Fico magoada ao me olhar no espelho. Eu vivia reclamando que meu marido se arrumava mais para estar com os outros, que comigo. Em casa era barba crescida, chinelo, roupa amassada e um humor do cão. Resmungos alternados com silêncios de quem não tem sequer energia para pensar, quanto mais para dialogar. Eu o recebia, toda alegrinha: "Me conta como é que foi o seu dia hoje!" E ele, nada. Eu achava que ele não queria saber de mim.

Ledo engano. Imagina se ele estaria a fim de continuar remoendo as tensões do trabalho? Eu ficava esperando que ele tomasse qualquer iniciativa diferente de desabar na poltrona. Quanto ressentimento inútil...

Agora eu faço a mesma coisa e vejo com outros olhos, com mais carinho, esse homem guerreiro, que até aprendeu a usar do meu salário sem se sentir humilhado. Vou pensando que continua a haver algo errado. Comigo eu começo a saber o que é.

Encarando o meu rosto cansado, sem viço, emplastrado de creme hidratante, emoldurado por rolinhos de espuma (pois grampos machucam a cabeça e eu tenho que estar bem arrumada de manhã), sentindo-me feia e pouco atraente, começo a entender um pouco mais da vida e de mim própria.

Tenho noção do AMOR. Que casamento é compromisso profundo e prolongado, um contrato de mutualidade e respeito pelo que se é, pelo que o Outro também pode ser. Que maternidade é tarefa de renúncia e exercício de limites, em que todos crescem e continuamente aprendem. Que trabalho não enobrece, quando nos exaurem as forças, mas que enaltece sempre que criativo e feito com vontade, seja qual for.

Que não é possível querer mudar sem mexer em nada, fazer de conta que ainda se é a mesma, ainda que a situação seja outra.

Que o trabalho não facilita tudo. Talvez até complique. Que trabalhando eu não fujo dos problemas, mas tenho oportunidades diferentes para resolver o mesmo problemão central: o quanto eu gostaria de ser ideal, e não sou! E me liberar... e ser quem sou!.

 
 

 
 
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