Assim que acordo.
Percebo
que estou de mal-humor, porque eu não
acordo. Sou acordada. Vilmente arrancada de
meu sono profundo, por dois despertadores e
um rádio-relógio que jamais conseguem
sincronizar os TRIM – BIP – BIP
– TRIM e a voz escandalosa do locutor:
"Bom dia, minha gente!"
Eu"aceno"de"levinho"com"a cabeça, para conferir
se hoje ela vai doer logo cedo, ou se vai demorar
mais um pouco.
Meu
corpo pede para se espreguiçar na cama,
enquanto eu já vou fazendo exercícios
vigorosos para espantar o sono e erguer a coluna.
Afinal é mais um dia de trabalho e eu
a-do-ro trabalhar.
Meu
pessoal dorme. Parece que sou só eu a
ser contemplada pela disposição
para enfrentar o dia. Isso me irrita, porque
além de trabalhadora faço as vezes
de despertador-da-família e ninguém,
mas ninguém reconhece isso.
Pelo
contrário, eu chego de mansinho e sussurro:
"Filha, está na hora..."
e ouço de volta: "Pó, mãe,
precisa gritar desse jeito?!" Mas, quem
é que gritou? Tenho vontade de deixar
todo mundo perder hora, mas desconfio de que
isso não será nenhum castigo,
muito pelo contrário. Com toda desculpa
do mundo, eles irão para o clube e eu
vou achar que estou criando uns delinqüentes!
Decido
que vou comprar uma buzina e "fonfonar"
na cabeça deles, amanhã mesmo.
Todos, os oito despertadores agora tocam, inclusive
o da empregada, e a reação que
vejo é a de resmungos, ouvidos tapados
pelos travesseiros, como se fosse eu que estivesse
incomodando.
Não
encontro o cafezinho preto pronto à minha
espera. Morro de raiva e de inveja da minha
"secretária do lar", mas
engulo tudo (porque preciso dela) e, gentilmente,
bato à sua porta e escuto: "Ai,
Dona, perdi a hora, né? Não posso
levantar. Passei uma noite horrível,
preocupada com os meus filhos, umas cólicas,
estou com a boca amarga..."
Respondo:
"Peraí, que eu te trago uma aspirina
e um café." Meu coração
bate acelerado e a minha dor-de-cabeça
matinal se instala.
Volto
para o meu quarto, tensa, imaginando como é
que seria a minha vida num Flat, já bem
acordada pela adrenalina que se esparramou pelo
meu corpo. A família já está
de pé e o meu marido ocupou o banheiro".
Quinze minutos se passaram e só tenho
mais quinze para sair de casa.
Procuro
pela "roupa adequada". Tenho dezenas
de peças e raramente acerto vestir aquela
que me dará o conforto necessário.
É quase como acertar na loto. As duas
ou três que agüentam as viradas do
tempo já estão muito manjadas.
As demais... vivo passando frio, ou calor. Como
é que se vai saber que tempo vai fazer.
Os
escritórios deveriam ter um vestiário
para a gente se trocar, tomar banho, se aliviar...
Ai, meu Deus, enquanto vou pegando as peças,
combinando brincos e sapatos, a dor de barriga
aumenta. O tempo passou e eu só posso
agora: ou caprichar no visual ou deixar a lista
das tarefas do dia e os cheques preenchidos
para os fornecedores, ou tomar meu café
da manhã ou me trancar no banheiro...
E desejar que a fechadura se quebre e eu não
possa sair de lá por dois dias, recebendo
revistas e comida pela janelinha!
Os
filhos já estão no carro, meu
marido me dá as "instruções
verbais" para o dia e a empregada começa
a se coçar, me pedindo a tarde de folga,
sei lá para quê. Eu dou. Eu dou
tudo! Desde que ela não vá embora
nessa fase (Em que pese que eu seja humanista,
neste momento desejaria revogar a Lei do Ventre
Livre!).
Como
mulher, afinal, tenho que respeitar suas preocupações
maternais e as suas cólicas menstruais.
Sorte dela que pode descansar, enquanto eu tenho
que marcar ponto e sorrir, sorrir sempre, mesmo
que queira rosnar. O café dela ninguém
controla. O meu é cronometrado. Só
dois por dia, que é tempo de contenção
de despesas na firma. Água eu posso beber
à vontade. Da torneira.
Enquanto
vou colocando meu lanche, milhas pinturas, minha
malha e guarda-chuva, tudo numa bolsa muito
pesada, ouço as reclamações:
"Mãe, ‘cê ta atrasada",
"Querida, ‘cê precisa chamar
a atenção da empregada que a camisa
amarela está sem botão",
"Dona, pede pras crianças não
trazerem os amigos hoje, que não vai
dar pra arrumar a sala e fazer o almoço...
"Mãe, eu já combinei com
eles que a gente vai fazer trabalho em grupo",
"Meu bem, precisa comprar colírio...
a pasta de dentes está no fim... a carne
acabou... precisamos economizar gasolina...
telefone... desperdício... tempo... buscar
sapato no conserto... reunião na escola..."
Bendita
dor-de-cabeça que não me deixa
ouvir mais nada! Eu só faço que
sim, e partimos. Vou comendo meu sanduíche
e fazendo maquilagem no espelhinho do carro.
Entre uma brecada e outra cuido dos olhos e
do batom. Tenho uma sensação íntima
de ser super mulher. Afinal, este é um
dia comum. Mais, que diabo! Por que é
que cada um não cuida das suas coisas,
faz suas pequenas compras, lava seus próprios
pratos e cuecas?
Sinto
vontade de voltar para a casa da minha mãe.
Só que estou indo para uma reunião
com os chefes da empresa, apresentar uma proposta
revolucionária que beneficiará
a todos nós. Sinto muito medo. Essa eu
não posso perder. Dela dependem várias
famílias. No "tchau-tchau",
um desce do carro aqui, outro ali, vou me aproximando
do escritório. Um beijo no rosto do meu
marido, que me diz com olhar grave e sério:
"Temos que ter mais tempo para nós.
Esta noite eu te procurei e você ... nada!
Sempre cansada..."
De
novo, deixo de escutar e só respondo
"É. Depois a gente se fala, ta?"
Um depois que nunca acontece, porque quando
não sou eu, é ele quem desaba,
no meio da novela. Fim-de-semana? Ou vamos para
o Guarujá e ninguém quer falar
de coisas sérias, ou tem filhos, sogros
e amigos no meio. Nunca dá pra parar.
E quem é que quer parar?
No
escritório.
Agora
começa o meu dia de trabalho remunerado.
Foi por isso que eu tanto lutei. Respiro fundo
e me concentro no serviço, não
sem antes reparar que minhas unhas estão
descascadas. Puxo a gaveta e pego a acetona.
Afinal, serão vários pares de
olhos focalizados na minha pessoa e tenho que
fazer jus a uma imagem de sucesso. Detalhes
bem cuidados ajudam a gente a se impor. Já
temos que "falar grosso", não
podemos ter "ar de lavadeira".
Vejo
com carinho essa minha primeira gaveta da escrivaninha.
Aí eu guardo minhas perfumarias, agulha
e linha, bilhetinhos, lacinhos, remédios,
lembranças e uma série de coisinhas
inúteis, que atestam a minha futilidade.
Imagino o que pode ter na primeira gaveta do
meu chefe. Sempre achei que seriam documentos
importantes. Ou... um revólver... dólares.
No mínimo a fotografia de sua atual amante.
Tenho
a idéia de que os homens são sempre
racionais. Afinal, dificilmente têm essas
crises histéricas que acontecem entre
as mulheres. Uma porque está grávida
sem querer, outra porque a filha dormiu fora,
outra porque a mãe está doente,
outra porque o marido tem outra, e a última,
porque passou o domingo sozinha. Daí
ter sempre alguém com os olhos vermelhos
de choro e o nariz fungando, se queixando de
dores e... atrapalhando o nosso trabalho.
Tenho
o maior ódio quando me flagro sendo "boazinha"
e desculpando os erros dessas mulheres que trazem
a sua vida doméstica, particular para
dentro do escritório. E o faço
por também ser mulher e ter dificuldade
em "mandar". (Nesse momento o telefone
toca e é a minha empregada avisando que
não vai trabalhar mesmo, só vai
sair à tarde).
Parece
que o cargo que ocupo deveria ser de um homem.
E me pergunto mil vezes se não estarei
deixando de ser feminina quando exerço
autoridade e faço valer minhas atribuições.
(Deveria tê-la impedido de sair? Afinal
na minha casa eu não mando mais?!)
Ser
autoritária em casa é uma coisa.
Isso eu tiro de letra. Tiro nada. Tirava. Quando
eu estava ... Mas no trabalho? Já me
disseram que eu pareço um homem de sais.
Poucas coisas me magoaram tanto. Quando um superior
meu é compreensivo eu penso: "Que
beleza de homem.
Quanta
humanidade!" Eu mesma, tenho dúvidas
sobre quando estou sendo humana e quando estou
sendo "entreguista". Beleza de educação
essa, em que menino não chora e menina
não pode brigar! Está tudo na
minha cabeça, hoje. Só que, a
cada vez que me pego brigando, impondo, tenho
medo de ser rejeitada: ou é porque estou
me "masculinizando", ou é
porque estou "naqueles dias" e não
consigo me controlar! Que sufoco.
Raramente
eu vejo um homem se desabafando, e mesmo assim
ele o faz com pudor. Se nervosos, no ambiente
de trabalho, quando muito ficam é mais
autoritários, calados, distantes, esbravejantes.
Nós mulheres, não. Parece vivermos
num eterno galinheiro com mil fofocas, ti-ti-tís.
Não que isso nos alivia, também.
É bom poder chorar em público.
Além do que, é uma boa arma para
se usar, quando a gente não sabe o que
fazer...
Ao
cair da tarde.
Apresentei
meus trabalhos e saí da reunião
com ares de Pomba-Mor. Peito estufado, exultante.
Não sentia nem mais a dor nos pés
apoiados precariamente num sete-e-meio. Lembrei-me
do meu primeiro namorado, de quando estudávamos
química e ele me disse: "Puxa,
você tem cabeça de homem!".
Foi
o máximo que ele conseguiu dizer para
me elogiar. Senti que havia algo de errado naquilo,
mas deixei pra lá. Eu mesma achava que
mulher-muito-inteligente e homem-muito-bonito
eram desperdícios da natureza...
Percebi
estar sendo cumprimentada, admirada e invejada.
Senti orgulho e muito medo. Sempre medo. Como
estaria a minha aparência, despenteada,
com a pele oleosa? Nos filmes as executivas
terminam essas reuniões com cara de quem
está indo para uma festa. Eu tenho a
péssima mania de passar a mão
nos cabelos, borrar a maquilagem, tirar os brincos.
Fico exatamente como o meu marido, que chega
em casa desalinhado, com a gravata no bolso,
os punhos dobrados, cheiro de suor. Ai, falta
um contra-regras na minha vida!
Chamou-me
a atenção ter recebido tapinhas
nas costas. Que coisa mais inócua! E
se, ao invés disso, meu chefe tivesse
alisado meus ombros?! Pasme. Quero fugir dali
e voltar para o aconchego do meu lar.
Mas
antes devo passar no supermercado, batalhar
por um táxi, telefonar para saber da
minha mãe que foi ao cardiologista, comprar
presente para a namorada do meu filho, cancelar
a visita a um casal de amigos, escrever uma
carta. Deus meu! E o jantar? O pessoal já
está entupido de pizzas e hamburguers.
Hoje será uma sopa pronta e omelete.
Dane-se. Ninguém está desnutrido,
oras.
Mas
dói, dói na alma quando nos sentamos
à mesa e eles debocham "Mãe,
esta casa está uma fartura! Farta tudo".
Eu me sinto a mais reles das donas-de-casa.
Eu que me dizia: "Nem que eu ganhe só
para pagar uma empregada, em casa eu não
fico!", agora vejo que não é
muito mais que isso que eu ganho, pois tudo
me sai mais caro: desde os táxis (pois
vivo atrasada), às compras de roupas
(pois não tenho tempo de procurar), até
os 20 a 30% de custo a maior nas despesas gerais
da casa! Quem é que pode rodar atrás
das ofertas? Vou gastando e comprando no caminho...
Ah,
doces tempos em que eu tinha o hábito
da leitura, minha ginástica, o papo esticado
ao telefone. E me mordia de inveja das trabalhadoras
do Brasil. Medo e inveja. A galinha do vizinho
é sempre melhor.
Quando
vou dormir.
Fico
magoada ao me olhar no espelho. Eu vivia reclamando
que meu marido se arrumava mais para estar com
os outros, que comigo. Em casa era barba crescida,
chinelo, roupa amassada e um humor do cão.
Resmungos alternados com silêncios de
quem não tem sequer energia para pensar,
quanto mais para dialogar. Eu o recebia, toda
alegrinha: "Me conta como é que
foi o seu dia hoje!" E ele, nada. Eu achava
que ele não queria saber de mim.
Ledo
engano. Imagina se ele estaria a fim de continuar
remoendo as tensões do trabalho? Eu ficava
esperando que ele tomasse qualquer iniciativa
diferente de desabar na poltrona. Quanto ressentimento
inútil...
Agora
eu faço a mesma coisa e vejo com outros
olhos, com mais carinho, esse homem guerreiro,
que até aprendeu a usar do meu salário
sem se sentir humilhado. Vou pensando que continua
a haver algo errado. Comigo eu começo
a saber o que é.
Encarando
o meu rosto cansado, sem viço, emplastrado
de creme hidratante, emoldurado por rolinhos
de espuma (pois grampos machucam a cabeça
e eu tenho que estar bem arrumada de manhã),
sentindo-me feia e pouco atraente, começo
a entender um pouco mais da vida e de mim própria.
Tenho
noção do AMOR. Que casamento é
compromisso profundo e prolongado, um contrato
de mutualidade e respeito pelo que se é,
pelo que o Outro também pode ser. Que
maternidade é tarefa de renúncia
e exercício de limites, em que todos
crescem e continuamente aprendem. Que trabalho
não enobrece, quando nos exaurem as forças,
mas que enaltece sempre que criativo e feito
com vontade, seja qual for.
Que
não é possível querer mudar
sem mexer em nada, fazer de conta que ainda
se é a mesma, ainda que a situação
seja outra.
Que
o trabalho não facilita tudo. Talvez
até complique. Que trabalhando eu não
fujo dos problemas, mas tenho oportunidades
diferentes para resolver o mesmo problemão
central: o quanto eu gostaria de ser ideal,
e não sou! E me liberar... e ser quem
sou!.