Era um daqueles salões
de cabeleireiro em que a gente se arrepende
de entrar. E não entende porque continua
deixando a moça picotar toda a cutícula,
já morrendo de medo de contrair infecção.
Na certa:
Tudo
grudento, mal cuidado, espelhos descascados,
assentos furados e descosturados... E por azar
do destino você lá, meio que paralisada.
Pela boa educação? Calor excessivo?
Solidão, numa cidade estranha, de passagem
para pegar um avião dalí a lastimáveis
5 horas ... Nada para fazer, ninguém
interessante a visitar ...
Eu
não havia reparado na moça, a
não ser quando ela veio de volta, segurando
pelas mãos uma criança, de uns
7 anos. Ela devia ter 37 e 47. Sei lá.
Um tipo vulgar. Avental branco manchado por
tinturas, botões estourando pelas suas
gorduras, cabelos descoloridos. Faltava-lhe
um dente. Os outros saltavam por sobre seus
lábios carnudos. Pele parda. Vozeirão.
-
"Eu não te disse que eu ia te trazer
um sapatinho hoje?" A criança,
timidamente, assentiu. "Fui buscar ela
do outro lado da rua. Quase não achava.
Vem cá querida, vem lavar os pezinhos,
para experimentar".
Pegou
a menina suja franzina, sentada na porta do
lavatório e começou a limpá-la.
Suas vestes rotas, seu rostinho assustado, boquiaberto.
Penteou seus cabelos, pôs fitinhas. Lavou-lhe
as mãozinhas, braços finos, pés
e pernas.
Tocava-a
com tal cuidado e desvelo, falava-lhe tão
suave e amorosa, que pasmei. Enquanto cuidava
da pequena, a morena foi se transformando, foi
ficando bela, sublime, enorme de grande.
Enxugou
os dedinhos um a um, passando a toalha e depois
talco, finalizando com suaves beijos nos pezinhos,
tão profundamente penetrantes que comecei
a soluçar, perante tal encantamento.
Meus olhos secos se arregalavam áquela
bolha iluminada que delas começou a emanar.
"Beija
aqui também. Agora esse outro dedinho,
senão ele fica com ciúmes."
A menininha arrulhava de satisfação.
Foi tomando ares de majestade. Tornou-se verdadeira
Senhora, cheia de dignidade, em sua presença
infantil, soberba em sua confiança. Já
ria alto, com pose de segurança. Sorria,
como se sempre tivesse sido assim.
"Pronto.
Agora você pode experimentar. Eu trouxe
dois. Uma sandália e um tênis.
Vê, qual você quer?"
Sua
hesitação devolveu-lhe o pequeno
tamanho de sua pouca idade. Seu olhar tornou-se
temeroso e furtivo.
"Ah,
você quer os dois, não quer? Então,
porque você não fala? Tome, leve
o tênis com você e vai de sandália.
Corre. Pode ficar com eles, ou então
dá um prum irmãozinho."
Seus
olhinhos se arredondaram e brilharam de alegrar,
á surpresa. Seu ar não era de
gratidão, mas de novo, de realeza a eterna
faxina do salão. A magia sossegou.
Chorei
pra dentro copiosamente. Meu corpo todo tremia.
Nunca mais vou esquecê-las.
Minha
maior vontade? Encontrar essa menina hoje e
pergunta-lhe: "Êi, aquilo mudou
alguma coisa na sua vida?"
Não
sei se na rua, numa escola ou já morta.
Não sei onde ela está. Queria
saber se o amor a salvou. E queria dizer àquela
senhora o quanto ela me ajudou!