ORIENTAÇÃO FAMILIAR

 
AGENDAS LOTADAS
 
Por Ana Perwin Fraiman
 

"Não basta qualidade, precisamos, também, de quantidade. A solidão só tem cura quando devotamos um tempo para aprender a ficar nós dois a sós".

Bem nos tempos de antigamente não existia essa coisa de "agenda", o tempo que é regulado, não só pelo relógio, mas pelos compromissos.

Se formos levar ao pé da letra o significado de "agenda ocupada", quer maior "sufoco" que a agenda dos antigos e medievais cavaleiros quando, em suas cruzadas, permaneciam anos à fio ausentes de casa, enquanto suas companheiras bordavam, tocavam, conversavam, cozinhavam e... os aguardavam?

Claro que as donzelas puras e castas esperavam direitinho, sem aprontar. Outras deviam ser bem mais inquietas e fogosas, posto que foi inventado o cinto de castidade, para que os traíssem e pior, viessem a conceber filho alheio, que pusesse a questão da herança em jogo. Sim, porque enquanto os Cavaleiros estavam "lotadézimos", os não-tão-nobres-assim dispunham de tempo de sobra para cativar e consolar as mulheres, nos intervalos de suas tarefas nos castelos.

Tenho cá, comigo, que algumas esperavam de fato, suspirosas, pelo regresso do amado, com olhos só para ele. O amor tem dessas coisas. Se você ama mesmo um, não tem espaço para outro. Porém, é um amor diferente, desses avassaladores e totais, amor-para-sempre, que só a uns poucos afortunados é dado experimentar.

Então, existem vários amores? Claro. A começar pelo amor por si próprio. Se for intenso demais, leva ao egoísmo. Moderado, parece dar suporte à auto-estima e dignidade. Fraco, confunde-se com falta de vergonha na cara.

Mas, falemos de amor pelo outro. Há amores que são feitos de admiração. Pela beleza, pelo poder e até pela riqueza. São mais encantamentos, que amor para valer. E, estão mais próximos do amor por si mesmo, do que do amor pelo outro.

Já, o amor-amigo é bem menos interessado, embora possa ser bem apegado. Pode gerar ciúmes, um certo desejo de exclusividade. É um tipo de amor que se incendeia fácil, tal como na adolescência, quando a jovem se apaixona de um dia para outro pelo colega de classe, só porque a-amiga-falou-que-ele-falou-que-é-a-fins-dela. Do jeito que pega fogo, logo pode esfriar. Especialmente, se faltar correspondência ou se a curiosidade passar. Na verdade, ainda não é amor. É só treino. Há anos dizia-se tratar de "paixonite aguda".

E tem o amor-amante. Esse é escaldante, feito mais de paixões do que de paciência e compreensão. É muitas vezes chamado de "coisa de pele" ou "química". Esse pode durar bastante. Se não houver muita convivência. Se houverem bastante obstáculos a superar. Se ambos morarem bem longe, um do outro.

Quando um deles, ou ambos, já for casado ou quando têm profissões muito envolventes, esse tipo de amor suporta bastante bem ser alimentado à distância, por cartas, bilhetinhos, telefonemas e encontros de poucas horas. Vá lá, tolera também, alguns dias de proximidade na mesma casa ou em viagem.

É uma experiência que pode ser espetacular. Cheia de aventuras e ansiedades: "Será que hoje vai dar?!" E de culpas: "Eu queria tanto estar com você, mas não posso. Surgiu um problema de última hora... Você me perdoa? Dá para se agüentar bem, sem mim ?" Reuniões, entrevistas, filhos, médicos, viagens, respectivas famílias e até amizades, tudo concorre para dificultar a vida do casal.

Mas, quando se encontram, é aquela festa ! Sexo ardente, mil coisas para contar, presentes a trocar, choro na despedida. Sabe-se lá, quando vão poder se encontrar de novo!? Passa um tempo, não muito, a distância abre espaço para a frustração. Quanta coisa importante acontece que não é compartilhada...

O tempo voa. Os encontros são tão poucos e rápidos, que mal dá tempo de se falar. Sexo gostoso, sim. Risadas? Muitas. Mas, conversa? Por telefone. Quando dá. E começa a não dar...

Na hora da dor de barriga, o outro não está lá. Na hora de aflição, também não. E na hora da felicidade? Tem outras pessoas, talvez estranhas, no lugar. O esquema de-vez-em-quando, começa a incomodar, pois, para o coração se agüentar, é preciso que o amado esteja, sim, ao alcance dos nossos olhos e das nossas mãos.

Quando amamos alguém, profundamente, queremos sentir seu cheiro, seu calor, vê-lo se movimentar... ficar só observando ...

Há momento de maior vulnerabilidade, do que aquele em que a pessoa amada dorme, em profundo abandono, e nós ficamos ali, só olhando ? E o ser amado ressonando, sem dizer nem fazer nada, em sua quietude, só nos enfeitiçando?

Para isso é preciso tempo. Não tem essa de "não precisar de quantidade, só de qualidade"! Para o sentimento amadurecer e se aprofundar é preciso conviver. No dia-a-dia, nas horas boas e ruins. Na saúde e na doença. Não tem outro jeito. Se não, é ilusão de amor.

O amor tem que suportar os defeitos do outro. Melhor ainda, quando aprendemos a amar, percebemos que são as nossas idealizações e expectativas irrealistas que nos ferem, não a outra pessoa. Porque ela é o que ela é. Se a gente fica buscando os "senões", é porque ainda não sabemos amar direito. Ou, então, a ilusão acabou.

Quer dizer que quando se ama prá valer a gente gosta de tudo do outro?! Podemos não gostar do que a pessoa diz ou faz, mas o amor dá crédito ilimitado. Uma vez esclarecido o problema, o peito se alivia e os olhos voltam a brilhar. Para um amor dar certo, temos que nos treinar para enxergar sempre o melhor do outro e dar peso menor ao que nos desagrada. A isto se chama tolerância.

Aqui já estamos a um passinho da tão assustadora intimidade, a capacidade de nos sentirmos "em casa" quando ao lado do outro. Mas, nem tanto, que nos leve a ficarmos desleixados, a termos as coisas como certas e garantidas.

Intimidade não é sexo. É estar tão à vontade, sentir-se tão aceito e aconchegado, que dá para a gente ser a gente mesmo, sem precisar disfarçar. Ah, aqui não cabe o glamour. Muito menos, as meias-verdades e as desculpas esfarrapadas. É preciso se entregar. E isso não é coisa que se faça correndo, de qualquer jeito.

Fazer sexo é fácil. Fazer amor é que são elas! Demora, requer empenho, dedicação. Quando os "egos" são ainda imaturos, desejosos de auto-afirmação, tolerância e intimidade assustam e ameaçam. O casal compete mais do que une forças. Os maus sentimentos, rancor, ciúmes, despeito, inveja... vão aprofundando, mais e mais, o fosso criado pelos apelos externos e sociais.

Não é o trabalho ou as exigências de tantos compromissos, aquilo que afasta o casal. Pelo contrário, pessoas, que têm terror de viver a intimidade e sentir profundo amor, elas é que ficam lotando as respectivas agendas. Ou buscando outras, que não têm tempo para elas, como forma de perpetuar suas carências, de viver em estado de desamor. Podemos dizer que, um dos maiores dramas humanos é o desejo de amar, quando ainda subsiste o medo do amor.

Precisamos ser famosos para isto, para que o nosso "ego" inflado, nos afaste da pessoa que mais queremos e tememos? Não, basta ser um workaholic, dos que se esgotam no trabalho e arreiam na casa. E basta ser mãe-em-tempo-integral, daquelas que acordam com as crianças e à noite estão arrebentadas.

Qualquer um de nós, simples mortais, podemos colocar uma porção de gente entre nós e nosso amor, nosso bem-querer. Pais, sogros, cunhados, amigos e filhos. Trabalho, trânsito, festas, compras, tratamentos. Doenças. Preocupações. Poltronas separadas. Horários diferentes. Dívidas e dúvidas. A única coisa em comum: um profundo sentimento de solidão, além da exaustão.

Mas, qualquer um de nós, também, pode se habilitar a aprender a amar. É preciso dar o primeiro passo, parar de criticar, de julgar, de exigir tanto. Voltar a falar macio e sorrir gostoso. Passar perfume e se arrumar para ficar em casa. E, principalmente, deixar de fazer tantas perguntas e começar a contar coisas, falar mais de si. Mesmo que, de início, o outro adormeça !... Amanhã, se tenta de novo.

Pior que agenda lotada é o vazio de quando a sós. Isso só tem cura quando arriscamos ter tempo para marcar um compromisso para nós. E ousamos conversar.