"Não basta qualidade,
precisamos, também, de quantidade. A
solidão só tem cura quando devotamos
um tempo para aprender a ficar nós dois
a sós".
Bem
nos tempos de antigamente não existia
essa coisa de "agenda", o tempo que
é regulado, não só pelo
relógio, mas pelos compromissos.
Se
formos levar ao pé da letra o significado
de "agenda ocupada", quer maior "sufoco"
que a agenda dos antigos e medievais cavaleiros
quando, em suas cruzadas, permaneciam anos à
fio ausentes de casa, enquanto suas companheiras
bordavam, tocavam, conversavam, cozinhavam e...
os aguardavam?
Claro
que as donzelas puras e castas esperavam direitinho,
sem aprontar. Outras deviam ser bem mais inquietas
e fogosas, posto que foi inventado o cinto de
castidade, para que os traíssem e pior,
viessem a conceber filho alheio, que pusesse
a questão da herança em jogo.
Sim, porque enquanto os Cavaleiros estavam "lotadézimos",
os não-tão-nobres-assim dispunham
de tempo de sobra para cativar e consolar as
mulheres, nos intervalos de suas tarefas nos
castelos.
Tenho
cá, comigo, que algumas esperavam de
fato, suspirosas, pelo regresso do amado, com
olhos só para ele. O amor tem dessas
coisas. Se você ama mesmo um, não
tem espaço para outro. Porém,
é um amor diferente, desses avassaladores
e totais, amor-para-sempre, que só a
uns poucos afortunados é dado experimentar.
Então,
existem vários amores? Claro. A começar
pelo amor por si próprio. Se for intenso
demais, leva ao egoísmo. Moderado, parece
dar suporte à auto-estima e dignidade.
Fraco, confunde-se com falta de vergonha na
cara.
Mas,
falemos de amor pelo outro. Há amores
que são feitos de admiração.
Pela beleza, pelo poder e até pela riqueza.
São mais encantamentos, que amor para
valer. E, estão mais próximos
do amor por si mesmo, do que do amor pelo outro.
Já,
o amor-amigo é bem menos interessado,
embora possa ser bem apegado. Pode gerar ciúmes,
um certo desejo de exclusividade. É um
tipo de amor que se incendeia fácil,
tal como na adolescência, quando a jovem
se apaixona de um dia para outro pelo colega
de classe, só porque a-amiga-falou-que-ele-falou-que-é-a-fins-dela.
Do jeito que pega fogo, logo pode esfriar. Especialmente,
se faltar correspondência ou se a curiosidade
passar. Na verdade, ainda não é
amor. É só treino. Há anos
dizia-se tratar de "paixonite aguda".
E
tem o amor-amante. Esse é escaldante,
feito mais de paixões do que de paciência
e compreensão. É muitas vezes
chamado de "coisa de pele" ou "química".
Esse pode durar bastante. Se não houver
muita convivência. Se houverem bastante
obstáculos a superar. Se ambos morarem
bem longe, um do outro.
Quando
um deles, ou ambos, já for casado ou
quando têm profissões muito envolventes,
esse tipo de amor suporta bastante bem ser alimentado
à distância, por cartas, bilhetinhos,
telefonemas e encontros de poucas horas. Vá
lá, tolera também, alguns dias
de proximidade na mesma casa ou em viagem.
É
uma experiência que pode ser espetacular.
Cheia de aventuras e ansiedades: "Será
que hoje vai dar?!" E de culpas: "Eu
queria tanto estar com você, mas não
posso. Surgiu um problema de última hora...
Você me perdoa? Dá para se agüentar
bem, sem mim ?" Reuniões, entrevistas,
filhos, médicos, viagens, respectivas
famílias e até amizades, tudo
concorre para dificultar a vida do casal.
Mas,
quando se encontram, é aquela festa !
Sexo ardente, mil coisas para contar, presentes
a trocar, choro na despedida. Sabe-se lá,
quando vão poder se encontrar de novo!?
Passa um tempo, não muito, a distância
abre espaço para a frustração.
Quanta coisa importante acontece que não
é compartilhada...
O
tempo voa. Os encontros são tão
poucos e rápidos, que mal dá tempo
de se falar. Sexo gostoso, sim. Risadas? Muitas.
Mas, conversa? Por telefone. Quando dá.
E começa a não dar...
Na
hora da dor de barriga, o outro não está
lá. Na hora de aflição,
também não. E na hora da felicidade?
Tem outras pessoas, talvez estranhas, no lugar.
O esquema de-vez-em-quando, começa a
incomodar, pois, para o coração
se agüentar, é preciso que o amado
esteja, sim, ao alcance dos nossos olhos e das
nossas mãos.
Quando
amamos alguém, profundamente, queremos
sentir seu cheiro, seu calor, vê-lo se
movimentar... ficar só observando ...
Há
momento de maior vulnerabilidade, do que aquele
em que a pessoa amada dorme, em profundo abandono,
e nós ficamos ali, só olhando
? E o ser amado ressonando, sem dizer nem fazer
nada, em sua quietude, só nos enfeitiçando?
Para
isso é preciso tempo. Não tem
essa de "não precisar de quantidade,
só de qualidade"! Para o sentimento
amadurecer e se aprofundar é preciso
conviver. No dia-a-dia, nas horas boas e ruins.
Na saúde e na doença. Não
tem outro jeito. Se não, é ilusão
de amor.
O
amor tem que suportar os defeitos do outro.
Melhor ainda, quando aprendemos a amar, percebemos
que são as nossas idealizações
e expectativas irrealistas que nos ferem, não
a outra pessoa. Porque ela é o que ela
é. Se a gente fica buscando os "senões",
é porque ainda não sabemos amar
direito. Ou, então, a ilusão acabou.
Quer
dizer que quando se ama prá valer a gente
gosta de tudo do outro?! Podemos não
gostar do que a pessoa diz ou faz, mas o amor
dá crédito ilimitado. Uma vez
esclarecido o problema, o peito se alivia e
os olhos voltam a brilhar. Para um amor dar
certo, temos que nos treinar para enxergar sempre
o melhor do outro e dar peso menor ao que nos
desagrada. A isto se chama tolerância.
Aqui
já estamos a um passinho da tão
assustadora intimidade, a capacidade de nos
sentirmos "em casa" quando ao lado
do outro. Mas, nem tanto, que nos leve a ficarmos
desleixados, a termos as coisas como certas
e garantidas.
Intimidade
não é sexo. É estar tão
à vontade, sentir-se tão aceito
e aconchegado, que dá para a gente ser
a gente mesmo, sem precisar disfarçar.
Ah, aqui não cabe o glamour. Muito menos,
as meias-verdades e as desculpas esfarrapadas.
É preciso se entregar. E isso não
é coisa que se faça correndo,
de qualquer jeito.
Fazer
sexo é fácil. Fazer amor é
que são elas! Demora, requer empenho,
dedicação. Quando os "egos"
são ainda imaturos, desejosos de auto-afirmação,
tolerância e intimidade assustam e ameaçam.
O casal compete mais do que une forças.
Os maus sentimentos, rancor, ciúmes,
despeito, inveja... vão aprofundando,
mais e mais, o fosso criado pelos apelos externos
e sociais.
Não
é o trabalho ou as exigências de
tantos compromissos, aquilo que afasta o casal.
Pelo contrário, pessoas, que têm
terror de viver a intimidade e sentir profundo
amor, elas é que ficam lotando as respectivas
agendas. Ou buscando outras, que não
têm tempo para elas, como forma de perpetuar
suas carências, de viver em estado de
desamor. Podemos dizer que, um dos maiores dramas
humanos é o desejo de amar, quando ainda
subsiste o medo do amor.
Precisamos
ser famosos para isto, para que o nosso "ego"
inflado, nos afaste da pessoa que mais queremos
e tememos? Não, basta ser um workaholic,
dos que se esgotam no trabalho e arreiam na
casa. E basta ser mãe-em-tempo-integral,
daquelas que acordam com as crianças
e à noite estão arrebentadas.
Qualquer
um de nós, simples mortais, podemos colocar
uma porção de gente entre nós
e nosso amor, nosso bem-querer. Pais, sogros,
cunhados, amigos e filhos. Trabalho, trânsito,
festas, compras, tratamentos. Doenças.
Preocupações. Poltronas separadas.
Horários diferentes. Dívidas e
dúvidas. A única coisa em comum:
um profundo sentimento de solidão, além
da exaustão.
Mas,
qualquer um de nós, também, pode
se habilitar a aprender a amar. É preciso
dar o primeiro passo, parar de criticar, de
julgar, de exigir tanto. Voltar a falar macio
e sorrir gostoso. Passar perfume e se arrumar
para ficar em casa. E, principalmente, deixar
de fazer tantas perguntas e começar a
contar coisas, falar mais de si. Mesmo que,
de início, o outro adormeça !...
Amanhã, se tenta de novo.
Pior
que agenda lotada é o vazio de quando
a sós. Isso só tem cura quando
arriscamos ter tempo para marcar um compromisso
para nós. E ousamos conversar.