Este texto visa lançar
luzes sobre algumas pistas que podem ajudar
pais e educadores na importante missão
de educar para a maturidade e autonomia.
Pensamos
que a maturidade e a autonomia decorrem de um
processo que vai se instalando na mente e nas
atitudes de uma pessoa, na medida em que se
internaliza uma percepção mais
ampla, reflexiva e construtiva de mundo, dos
fatos e de si mesmo.
Acreditamos
no potencial que existe dentro de cada um de
nós e nos "milagres" que acontecem
quando nos tornamos verdadeiramente livres interiormente.
Livres para sonhar, para ver e para fazer acontecer,
criando um compromisso com nossos próprios
desejos.
A
liberdade, porém, sem um projeto maior,
torna-se desvario. Pura perda de energia, como
uma turbina de avião acionada fora de
sua asa.
UMA
JUVENTUDE ETERNA
Temos
observado na cultura ocidental uma geração
de jovens cada dia mais imatura e sem autonomia.
O fenômeno é tão abrangente
que já pode ser visto no filme "Armações
do Amor", em que a personagem da atriz
Sara Jéssica Parker (do seriado Sex and
the City) tenta seduzir o "solteirão-meninão",
interpretado pelo ator Mattew McConaughey, a
sair da casa de seus pais, onde vive como um
rei.
Hoje
em dia, são poucos os que desejam sair
da casa dos pais antes dos 30 ou 35 anos. Até
que finalmente optem por sair, os pais devem
(segundo os filhos) dar-lhes casa, comida, roupa
lavada, compreensão, liberdade, mesada,
privacidade (especialmente quando levarem garotas
para seu quarto), não pegar no pé
e aturar todo tipo de atitude.
As
faculdades, preocupadas com isso chegam a fazer
reuniões de pais e mestres e encontros
com familiares, para que estes se conscientizem
da importância de uma postura mais autônoma
e de atitudes maduras – pelo menos dali
em diante. Rosely Sayão, educadora e
escritora da Folha de São Paulo dedicou
diversas de suas colunas a esta questão.
Os livros sobre limites na educação
dos filhos, de Içami Tiba, tornaram-se
espetaculares best sellers. As publicações
com orientações estão por
toda parte. Mas porque as coisas não
mudam? Porque mesmo com tantas publicações
a respeito do tema, a situação
só vem se agravando?
Vivemos
em uma cultura que dificulta o crescimento por
meio da intensa oferta de bens de consumo como
se estes fossem as formas mais simples para
a felicidade.
Uma
cultura que incentiva o sucesso rápido
a qualquer preço, dentro de um contexto
social que está mergulhado em um mar
de mentiras e desenganos na esfera política.
Observamos um desencanto geral pelas instituições.
Além disso, os próprios pais,
muitas vezes, bloqueiam o amadurecimento de
seus filhos com suas próprias atitudes,
por vezes, também imaturas.
FILHOS QUE QUEREM TUDO PARA SI
Quando os filhos entram na universidade é
que geralmente os pais caem em si. O desafio
torna-se, aí sim, visível e preocupante.
Como convencer uma pessoa que foi carregada
em trono de ouro durante a vida toda de que
agora ela deverá ir sozinha buscar o
texto a ser estudado na biblioteca? Quem deverá
se responsabilizar pela sua própria educação
daqui em diante, pois o que aprender na faculdade
em poucos anos já estará desatualizado?
Como um jovem que não amadureceu irá
se colocar no mercado de trabalho cada dia mais
exigente e competitivo no qual, tudo muda a
um ritmo avassalador?
Outro dia mesmo, assisti a uma cena chocante
na recepção da minha clínica.
Uma jovem de 19 anos gritava com a sua mãe
dizendo que queria trocar de celular e que iria
fazê-lo "de qualquer jeito".
A mãe, aflita, tentava explicar que não
tinha dinheiro e que não concordava com
aquele gasto naquele momento. A filha simplesmente
disse: - "Então vai se x#%$#$!,
você é uma babaca mesmo".
A mãe, num ar de desculpa respondeu para
a filha: - "Querida eu não tenho
este dinheiro agora, aliás, a gente acabou
de redecorar o seu quarto...", na tentativa
de apelar para um suposto bom senso. A garota
mais uma vez em palavras desairosas, apelou:
- "Não dá mesmo! Nesta família
de x#%#$# a gente não pode nada".
E saiu andando. A mãe olhou para mim
com certo embaraço e entramos na consulta.
Os pais hoje em dia sentem-se perdidos e confusos.
Durante tanto tempo ouviram que deveriam conversar
mais, ouvir os filhos, não bater, evitar
traumas e dores, que acabaram chegando ao seu
extremo. Crianças da quarta série
já andam pela escola com seus celulares,
para combinar o que irão pedir na lanchonete
da escola no recreio, e até, para mandar
torpedos sobre o que estão achando da
aula. O que uma criança desta idade precisa
falar no celular? Chegamos a um ponto de criarmos
uma geração que desconhece as
palavras "tempo", "esperar"
e "construir". Tudo é pra já,
agora, neste momento.
ACABAMOS COM O TEMPO NATURAL
Estamos acabando com a infância. Menininhas
de 6 anos já se maquiam, perfumam e se
vestem como suas mães (por vezes, mais
sedutoras) e os garotos querem os mesmos privilégios
que seus pais. Meninas de salto alto, bolsinha
na mão e celular em punho. Garotos com
pulseiras, colares de aço, roupas de
grife e tratamentos estéticos.
Idolatramos a adolescência. Todos querem
ser jovens, se vestir como tal e aparentar pouca
idade. Nossa cultura não tolera o velho
e faz de tudo para evitar mostrar os sinais
da idade, que deveriam ser a prova de uma vida
bem vivida, de dignidade pessoal, mas vem se
tornando um testemunho de vil degradação
e de perdas, da qual todos parecem fugir.
Assim, ninguém amadurece, ninguém
perde nada, ninguém sofre à espera
de nada. As crianças se tornam "jovenzinhos"
cedo demais. Os jovens não saem da adolescência
nunca, e os pais disputam este espaço
com os próprios filhos. Não são
assim tão raros, casos de homens que
ficam com as amiguinhas da filha, ou de mães
recém-solteiras que saem com os amigos
do filho da oitava série. Como se isso
fosse sinal de liberdade.
Sem
referências em que se espelhar, como um
filho pode crescer e amadurecer? Sem limites,
como poderá tornar-se uma pessoa de bem,
justa, que sabe seu lugar no mundo?
Ora, menos liberdade e mais bom senso. É
disto que estamos todos precisando. Há
paisque abrem mão de todo seu papel formativo,
jogando na escola toda a responsabilidade. É
preciso formar um elo de apoio e cooperação
entre família e escola, para que juntas,
possam formar as duas margens de um rio no qual
o filho-aluno irá se desenvolver. Duas
margens com sintonia de propósitos, complementares
em suas funções, com proximidade
e cumplicidade.
Divididos entre a carreira, o MBA, a academia,
os amigos, o happy hour e a terapia, os pais
ficam com pouquíssimo tempo para desenvolver
tudo aquilo que se espera deles.A tão
almejada autonomia intelectual e moral dos filhos
depende de uma presença constante, segura
e eficaz dos pais em suas vias.
A ENTRADA NA VIDA ADULTA
Muitos adolescentes convivem com afirmações
do tipo: "depois que acabar a escola tudo
fica mais complicado, a vida ficará muito
mais difícil". Pode até ser
uma forma de torná-los mais alertas e
com isso prepará-los fazendo com que
amadureçam. Mas, na prática, isso
só congela os sonhos e impede ações.
Na visão de seu filho a realidade se
apresenta como: "não existem motivos
para sair da adolescência, afinal, a vida
adulta é difícil, dolorosa e decepcionante,
o melhor é tentar prolongar esta etapa,
para evitar o sofrimento". Faz sentido
não?
Porém, quem já passou desta fase
sabe que a vida adulta não se resume
só em complicações. À
medida que amadurece, o jovem escolhe com quem
prefere estar pois passa a ter domínio
de suas ações, o que é
muito prazeroso, além disso defende suas
convicções com argumentos próprios,
é ouvido por pessoas de qualquer idade...
O mundo adulto é cheio de descobertas
e ganhos e os filhos precisam saber disto.