Bem se diz que uma moeda tem
dois lados e que uma história tem no
mínimo duas versões. Com relação
à dependência emocional muito se
tem contado em verso e prosa, o lado dos filhos.
Os refrões são conhecidos: "Eles
têm que aprender a se virar!" (é
uma estrofe bem manjada, já!). "Eles
têm que se tornarem independentes!"
(outras modalidades: "pensar com a própria
cabeça"; "ter opinião
própria"; "fazer suas escolhas");
mais ou menos se sabe que "eles têm
que desmamar!"; e mais recentemente se
fala em "ter o seu espaço".
Tem
até uma canção popular
em que o jovem, que tem de tudo na família:
amor, compreensão, dinheiro, apoio e
incentivo, ele protesta: "como é
que eu vou crescer sem ter com quem me rebelar?"
Daí
fica parecendo que a solução (e
a dissolução) dos quadros de dependência
emocional está nas mãos dos jovens.
Que, como tarefa de vida e crescimento, cabe
à eles a transformação
da relação e que aos pais (e principalmente
à mãe) cabe opor resistências
e sofrer os impactos da crescente independentização
dos filhos. À mulher, novamente, se atribui
um papel passivo nessa estória, sem que
ela tem que se conformar com o crescimento dos
filhos e, estoicamente, entregá-los ao
mundo, não sem sentir estar sendo roubada!
Aliás, ela tem que sentir-se roubada,
que senão será entendida como
egoísta, insensível, mamãe
e portanto, "um horror de pessoa".
São
os filhos que têm que cavar o seu espaço!
Ela tem que aguardar o processo. Nem retardá-lo
(para não se enquadrar como super-mãe),
nem açucará-lo (para não
se enquadrar como desalmada). Esse tem sido
o enredo macabro com que nós mulheres
vimos sendo contempladas nas últimas
décadas.
Bem,
e quando é a mulher que se rebela contra
uma maternidade tempo e dedicação
integral? E quando é ela que começa
a sonhar viver num flat (sozinha, é claro),
fazer viagem só com passagem de ida (a
volta em aberto), estudar, trabalhar? Ah! Dessa
que diz que é nostalgia dos tempos não
vividos, que é o lamento de quem se casou
cedo sem ter aproveitado bem a vida, que é
menopausa, que é qualquer coisa, menos
um desejo legítimo de crescimento, atual,
normal e saudável!
Mas
não! À mulher foi ensinado que
ela deve sentir-se culpada e envergonhada à
cada momento em que sequer pensar em si própria,
em ter o seu espaço desocupado dos filhos,
do marido, e mesmo dos pais. O espaço
da mulher fica assim povoado de gente que não
foi chamada e nem é bem-vindo a todo
e qualquer momento como se espera.
Ela
fica assim disponível para ajudar aos
demais: os filhos a crescer, os pais a envelhecer;
o marido a ser bem sucedido. Aprende bem como
cuidar de todos, menos de si própria.
Define-se somente após todos estarem
bem acomodados e, então, sair pela cidade
encaixando os seus horários e interesses
da família. Enquanto os filhos estão
na escola, ela vai fazer as aulinhas e visitas
e compras, trabalho part-time, e sai correndo
"bonitinha", larga tudo que lhe
apraz, para choferar, servir à mesa,
dar presença.
E
faz tudo com desenvoltura, capricho e mesmo
carinho. Está sendo uma boa mulher-menina,
com aparente impressão de eficiência
e competência. Se antes ela obedecia aos
horários que os pais lhe impunham para
voltar à casa, hoje ele obedece aos horários
que a família impõe. O quadro
complicou! Antes eram só dois, pai e
mãe a dirigir a sua vida; (se muito,
talvez também um irmão mais velho
ou um mais novo que adorava "dedurar");
agora são 4 ou 5 pessoas: desde o marido
que não admite chegar em casa e não
encontrá-la a sua espera, até
o tiraninho de dois anos de idade que tem horário
de saída do mini-maternal, passando pelo
de oito que não faz as lições
se ela não sentar junto, pela de doze
que tem festinha na pizzaria, e até pela
faxineira que não tem a chave de casa.
A
inteligência da mulher é gasta
então, na aprendizagem condicionada de
todos os horários, tarefas e percursos
desse povo todo, a quem cabe-lhe supervisionar,
senão dirigir! Até o momento em
que os filhos crescem e a acusam: "você
é uma generala!". Ai, que dor.
A
mulher foi construindo assim uma noção
de eu diretamente envolvida no tomar de conta
de outras pessoas, e o seu "eu"
fica enviesado. Ela sabe que lhe falta algo.
Um algo indefinido, que incomoda, que fragiliza,
que mina sua auto-estima. Entra em ansiedade.
Sente-se sufocar e faz um balanço: "mas
não me falta nada!". Tem marido
atencioso, filhos saudáveis, boa casa,
beleza, graça, dinheiro no bolso, boas
roupas, bons programas, boas amigas. Queixar
de que? Concluir ser mesmo uma "ingrata"
e que "não se pode querer tudo
na vida".
Pois
sim! Nada disso a convence, pois ela continua
a querer (graças a Deus!) e fica cada
vez mais insatisfeita, insone, irritada. Minha
gente, é o seu EU que pede passagem,
que anseia por se expandir. Senão de
duas uma: ou explode (e ela fica uma chata,
reclamona, autoritária) ou implode (e
ela vai fazer carreira de doente, obesa ou deprimida).
É
o seu tempo de crescer e cavar os seu espaço!
E vamos entender que aqui falamos de espaço
psicológico, resultante complexa de relações
sociais, físicas e ambientais, que vai
formando a noção de eu, ou seja,
a identidade. A coisa é séria
e profunda. Vamos ver que a identidade é
uma construção móvel, dada
pela percepção e conhecimento
do corpo, das sensações, das emoções,
daquilo que a pessoa tem de própria e
intransferível e que não dá
nem para sentir, já que é subjetivo;
e mais, a percepção e conhecimento
do modo físico e social, exterior à
pele da pessoa, e que é objetivo. Aí
cabem os papéis desempenhados, os ambientes
que se frequenta, as diferentes pessoas com
quem se convive.
É
na intersecção do subjetivo e
do objetivo (do mundo pessoal e do mundo social)
que se constitui a identidade, que nunca está
pronta em definitivo, mas que tem uma estabilidade
provisória. É só mudar
algumas condições, sejam subjetivas
(Ah!, como a pessoa se sente outra, quando está
amando!...), sejam objetivas (Ah!, como a pessoa
se sente perdida quando é despedida do
emprego"!....), que a noção
de eu, ou a identidade, precisa ser reformulada,
se atualizar.
Pois
bem, à medida em que os filhos vão
crescendo é inevitável que o mesmo
ocorra com a mulher-mãe. Se as crianças
se identificam com a mãe, também
esta se identifica com as crianças, é
óbvio! (como é que a mãe
adivinha muitas das necessidades, desejos e
sentimentos dos filhos?) pelo processo de empatia
e de identificação, percebe? E
pelo impulso de crescimento dela.
Chega
um momento em que o que está aí
feito já não satisfaz, por mais
bem feito que esteja. A mulher precisa de novas
referências e experiências, caso
contrário, sua personalidade enfraquece,
ela se fragiliza, se torna impotente. Inclusive
perde o apetite sexual e a curiosidade perante
o milagre da vida. Envelhece mal!
É
aí que os estudos e o trabalho adquirem
importância capital. Ela quer sentir-se
capaz de ganhar seu próprio dinheiro,
de tomar decisões que envolvam somente
a sua pessoa, de se libertar desse imenso NÓS
que é a família e conhecer melhor
o seu EU escondido, que se revela em sonhos
de angústia e em dúvidas mil:
"será que ainda amo o meu marido?",
"eu gosto dos meus filhos, mas, será
que não os tive cedo demais?!".
Pode pintar aí o desejo de ter um namorado
(vai descobrir um outro, vai se revelar para
um outro... o que é o namoro senão
um tempo de descobertas mútuas de muito
prazer, de ousar, de criar e sonhar ousado),
o arrependimento, a culpa, o medo de voar alto.
É tempo de insegurança. O processo
decrescimento envolve desmontar todo um condicionamento
físico e temporal. E montar um novo.
Como
é que é esse negócio de
falar com homens desconhecidos? Quando se trabalha
isso ocorre. Como é que é esse
negócio de virar as costas sem culpa
quando uma pessoa já passou das medidas?
Como é dizer não sem precisar
se justificar, ou dizer "sim" para
um novo grupo, sair do trabalho e esquecer do
horário, da família, só
porque o papo estaria correndo solto e gostoso?
E voltar feliz em casa, com novidades, inclusive
poder dizer: "Gente, lamento o atraso
e a preocupação de vocês,
mas aconteceu um negócio!" e a
fazer a família vibrar e rir?! Mudar
o esquema de eternamente se desculpar e se sentir
em falta. Construir um novo "eu"...
viver?!
Dá
muita mão de obra, eu sei. Ah! Como sei!
Mas que é bem melhor que o tédio,
isso é! E a personalidade se expande,
se fortalece e a pessoa se torna mais interessante,
sem qualquer sombra de dúvida. A mulher
que se restringe a viver um único ambiente,
ainda que satisfatório, perde a oportunidade
de conhecer o esplendor dos muitos shows que
a vida proporciona sempre. Ela fica submetida
à apreciação de um público
muito restrito, exigente e mais, deixa de desenvolver
outras possibilidades. Sua noção
de eu fica enviesada, como se fosse uma única
verdade. Isso tanto é válido para
as que só ficam em casa, como para as
que só trabalham e não tem família.
Ambas sentem o desejo e o medo de conhecer o
outro lado, e o difícil e doloroso processo
de se revelarem mais integralmente, tornarem-se
complexas e não mais complexadas.
Uma personalidade em crescimento se confronta,
inevitavelmente, com as suas dependências
emocionais, e aí temos o outro lado da
"moeda pais e filhos". Assim como
a criança se desespera quando os pais
saem passear, por medo de que não retornem,
também os mais velhos podem se desesperar,
quando os filhos saem de casa, por medo de virem
a ser esquecidos e desprezados.