ORIENTAÇÃO FAMILIAR

 
DIZER "OBRIGADO"
 
Por Ana Perwin Fraiman
 

Uma das maiores virtudes, a gratidão, pode ganhar forma em uma simples palavra: obrigado.

A capacidade de dizê-la, espontaneamente, deriva de um lado da sensibilidade para apreciar que um "algo a mais" foi feito e, de outro, da disposição em expressar abertamente esse reconhecimento.

Este "algo a mais", pode ser um pequeno favor, uma ajuda inestimável, um simples oferecimento de algo material, ou de uma idéia.

Trata-se de um gesto não devido, sem qualquer obrigatoriedade, que temos a graça de fazer ou de receber. Há gestos automáticos, de cujo valor as pessoas não têm a menor noção.

E há gestos grandiosos que, longe de ajudar, se tornam verdadeiras invasões. Não importa o quê, está em jogo o valor do próprio gesto.

Você pode não gostar de uma idéia, mas pode agradecer por tê-la escutado.

É interessante que somos muito gratos e polidos com os desconhecidos e tomamos como certas e de direito, as gentilezas que os nossos íntimos nos proporcionam.

É como se disséssemos: "Não precisava se preocupar comigo", aos desconhecidos e "você tem que se preocupar comigo" aos amigos.

Na verdade, nem uma coisa, nem outra. Faz parte de um viver harmônico que desconhecidos se preocupem com os destinos de desconhecidos. Se não, porque haveríamos de lutar pela paz mundial?

Também, faz parte que amigos com quem estamos muito envolvidos, confiem que sejamos perfeitamente capazes de tocar a nossa vida e resolver nossos problemas, esquecendo-se de se oferecer para nos ajudar.

Muitas vezes, contamos aos amigos o que nos aconteceu de ruim, depois de termos resolvido tudo e superado a crise. Nós, também, esquecemos de pedir ajuda ou não queremos incomodar.

Então, os verdadeiros amigos se zangam "Por que você não me chamou?! Eu teria largado tudo e vindo na hora!" Ou, então, podem suspirar aliviados e dizer, sem que a gente se ofenda "Que bom que já passou tudo e eu nem soube! Você me poupou de uma grande preocupação".

Isso quer dizer que vivemos no limite de precisarmos cuidar de desconhecidos e esquecer os amigos e, por outro lado, precisarmos contar somente com as nossas forças, esquecer os desconhecidos e cuidar bem dos amigos.

É um limite impreciso e mutante, que atesta a nossa consideração pelos outros e a nossa capacidade de sermos humildes, já que nenhum favor é obrigação e que não temos direito à nada, que o outro não se lembre ou que não queira nos oferecer.

Este reconhecimento da graça que vem "de graça" deriva da nossa capacidade de nos envolver: quanto mais profundo o relacionamento entre as pessoas, maior o senso de individualidade e a capacidade de apreciar a originalidade do outro.

Todo envolvimento profundo é empático e criativo, pois, quando uma pessoa aprecia um amigo, um colega, está motivada a fazer o que puder por ele.

Cada "obrigado" sincero que pronunciamos pelo apreço que nos é dedicado, contempla duas dimensões, simultaneamente: a gratidão aos nossos semelhantes, pelo que, material e gentilmente nos é doado, e a gratidão a Deus, por termos recebido um algo especial, tenhamos, ou não, merecido.

Além disso, na dimensão espiritual, todas as graças que recebemos não dependem do nosso merecimento.

Se, entre os homens, a gratidão pode se resumir numa simples palavra, quando vibramos na dimensão sagrada, faltam-nos palavras para expressá-la.

É só emoção e uma certeza daí derivada: "Que um dia, faremos por alguém, aquilo que nos é dado receber agora". Essa é uma promessa do coração, que nos dará, certamente, a chance de resgatá-la.

Uma das maiores graças que recebemos, é o conhecimento. Uma aula bem dada, uma instrução clara para resolver um problema, uma pergunta no lugar de duas respostas.

Se estamos, pois, preparados para liderar, é mister levar ao grupo o nosso conhecimento e, principalmente, promover o enriquecimento do saber do grupo.

E, mais do que saber sobre outros grupos, saber de si próprios. É o líder envolvido na promoção do auto-conhecimento, caminho – por excelência – da conquista da autonomia e da liberdade.

Cada discussão e troca de idéias num grupo, a partir de um sentido mais amplo, pode se tornar uma expressão da nossa gratidão, um momento compartilhado de evolução espiritual.

A pessoa que compartilha seus conhecimentos e, principalmente, discute suas dúvidas, demonstra seu vínculo com Deus.