ORIENTAÇÃO FAMILIAR

 
MAGIA
 
Por Ana Perwin Fraiman
 

Era um daqueles salões de cabeleireiro em que a gente se arrepende de entrar. E não entende porque continua deixando a moça picotar toda a cutícula, já morrendo de medo de contrair infecção. Na certa:

Tudo grudento, mal cuidado, espelhos descascados, assentos furados e descosturados... E por azar do destino você lá, meio que paralisada. Pela boa educação? Calor excessivo? Solidão, numa cidade estranha, de passagem para pegar um avião dalí a lastimáveis 5 horas ... Nada para fazer, ninguém interessante a visitar ...

Eu não havia reparado na moça, a não ser quando ela veio de volta, segurando pelas mãos uma criança, de uns 7 anos. Ela devia ter 37 e 47. Sei lá. Um tipo vulgar. Avental branco manchado por tinturas, botões estourando pelas suas gorduras, cabelos descoloridos. Faltava-lhe um dente. Os outros saltavam por sobre seus lábios carnudos. Pele parda. Vozeirão.

- "Eu não te disse que eu ia te trazer um sapatinho hoje?" A criança, timidamente, assentiu. "Fui buscar ela do outro lado da rua. Quase não achava. Vem cá querida, vem lavar os pezinhos, para experimentar".

Pegou a menina suja franzina, sentada na porta do lavatório e começou a limpá-la. Suas vestes rotas, seu rostinho assustado, boquiaberto. Penteou seus cabelos, pôs fitinhas. Lavou-lhe as mãozinhas, braços finos, pés e pernas.

Tocava-a com tal cuidado e desvelo, falava-lhe tão suave e amorosa, que pasmei. Enquanto cuidava da pequena, a morena foi se transformando, foi ficando bela, sublime, enorme de grande.

Enxugou os dedinhos um a um, passando a toalha e depois talco, finalizando com suaves beijos nos pezinhos, tão profundamente penetrantes que comecei a soluçar, perante tal encantamento. Meus olhos secos se arregalavam áquela bolha iluminada que delas começou a emanar.

"Beija aqui também. Agora esse outro dedinho, senão ele fica com ciúmes." A menininha arrulhava de satisfação. Foi tomando ares de majestade. Tornou-se verdadeira Senhora, cheia de dignidade, em sua presença infantil, soberba em sua confiança. Já ria alto, com pose de segurança. Sorria, como se sempre tivesse sido assim.

"Pronto. Agora você pode experimentar. Eu trouxe dois. Uma sandália e um tênis. Vê, qual você quer?"

Sua hesitação devolveu-lhe o pequeno tamanho de sua pouca idade. Seu olhar tornou-se temeroso e furtivo.

"Ah, você quer os dois, não quer? Então, porque você não fala? Tome, leve o tênis com você e vai de sandália. Corre. Pode ficar com eles, ou então dá um prum irmãozinho."

Seus olhinhos se arredondaram e brilharam de alegrar, á surpresa. Seu ar não era de gratidão, mas de novo, de realeza a eterna faxina do salão. A magia sossegou.

Chorei pra dentro copiosamente. Meu corpo todo tremia. Nunca mais vou esquecê-las.

Minha maior vontade? Encontrar essa menina hoje e pergunta-lhe: "Êi, aquilo mudou alguma coisa na sua vida?"

Não sei se na rua, numa escola ou já morta. Não sei onde ela está. Queria saber se o amor a salvou. E queria dizer àquela senhora o quanto ela me ajudou!