Nem sempre podemos escolher
onde e com quem trabalhar. Nem no quê
trabalhar. Precisamos ganhar a vida e damos
graças a D’us quando há
uma oportunidade que nos permita viver decentemente.
E decência, aqui, quer dizer "pagar
as contas" dos filhos nos colégios,
seus livros e uniformes, as prestações
da casa própria, um bom programa, um
jantar especial e, talvez férias para
a família.
De
vez em quando uma festa, um bom presente, um
bom corte de cabelo, bons livros, remédios
e seguro-saúde, roupas bem cuidadas,
carro com manutenção em dia, flores
e jardins, um animal de estimação,
boa fragrância no ar... Não se
trata de padrão, mas de qualidade.
A
pessoa precisa sentir que progride com o seu
trabalho. Ou, em termos de padrão, vive
tão bem, ou melhor, que seus pais e que,
em termos de qualidade, usufruir mais satisfação
e bem estar com a vida. Para garantir o padrão,
é o que o trabalho lhe permite ganhar.
Para viver com qualidade trata-se de integrar
seu trabalho às demais esferas do seu
viver.
Enquanto
o salário garante o acesso às
coisas materiais, é a determinação
e a disciplina que sustentam o compromisso da
integridade que a pessoa alcança, para
levá-la à uma vida com qualidade.
Cuidados com a saúde física, sabedoria
existencial e relacionamentos humanos significativos
e, como substrato a tudo isso, uma vida rica
em experiências de natureza espiritual.
Quando
a pessoa tem esse compromisso para consigo,
além de estabelecê-lo para com
a empresa na qual desenvolve o seu trabalho,
ela não sente separação
entre o que este é e aquilo que ela é.
Está integrada ao que faz. Seu trabalho
passa a coordenar aquilo que sente, que pensa,
que conversa. Vive o horário social de
sua jornada e, mesmo, o seu sono, seu apetite,
sua disposição, ficam afeitos
ao mundo de seu labor.
Ela
"esquece" sua existência apartada
de deu universo laboral e agradece por obter
tudo aquilo que ama, fruto de seus esforços,
passando a amar seu trabalho. Torna-se "um"
com ele.
Seus
sacrifícios transcendem os aspectos materiais
de sua vida e de seu próprio Ego e, nesse
sentido, mergulha de corpo e alma naquilo que
aprendeu a amar a partir de uma simples oportunidade
inicial de trabalha. Esta é uma declaração
de integridade tal que, recusa-se a separar
o mundo físico do mundo mental e, além,
do espiritual.
Rejeita
uma vida sem trabalho, uma vida que não
reflita sua essência íntima capaz
de sublimar os maiores conflitos, a partir das
mais difíceis condições
vivenciais.é nesse sentido que o seu
trabalho torna-se o seu sacro-ofício,
seu modo de servir e participar da criação,
mesmo que seja uma experiência diária
massacrante e extenuante.
Se
for obrigado a cortar a conexão entre
o trabalho e o seu autoconceito e passar a viver
em contradição com aquilo em que
acredita e aceita ser correto, então
prefere não mais viver, pois não
consegue conceber uma vida que transcorra em
sentido contrário à tudo aquilo
em que acredita, naquilo que sustenta a sua
fé, sua percepção de si
e seu valor como ser humano digno.
Para
ele, sua unicidade está garantida pelo
seu prazer, sua identidade imbricada com o seu
fazer é uma realidade palpável
e não, meramente uma idéia. A
dedicação plena ao trabalho levanta
uma grave questão: como manter o senso
de individualidade preservada, além e
aquém do universo do fazer? Como levar
a pessoa a se perceber como aquele que sente,
pensa e realiza trabalhos, como aquele que o
escolhe e articula, após anos de perceber-se
somente através daquilo que levou anos
a fio para aprender a fazer como o seu melhor?
Como
pode, uma pessoa amar-se apartada do trabalho,
quando tudo que ela conseguiu foi amar-se através
dele e, com ele aproximar-se, inclusive, da
fé e da gratidão a Ele por ter
um trabalho e conseguir realizá-lo? E
mais, como chegar a esta fé e esta entrega
quando, nos tempos modernos, esse processo está
sendo freqüentemente ameaçado, quando
não rompido, pela expectativa de troca
de emprego, de local, de relacionamentos, posições,
interesses e, mesmo, necessidades?
Bem,
o amor ao trabalho é diferente do amor
a trabalhar. O primeiro implica em apego, à
coisa, ao lugar. O segundo é o próprio
ato, o gesto desprendido de participar e de
criar. E amor é algo que se sente, ou
não se sente. Ninguém pode nos
obrigar, mos ordenar sentir algo que não
condiz conosco.
É
por isso que amar trabalhar vem primeiro que
amar em que se trabalha, ou aquilo em que se
trabalha. Quando se compreende a profunda necessidade
de se realizar através do trabalho, a
pessoa compreende-se como co-criador e reconhece
que a obra d’Ele se manifesta em cada
forma com que o trabalho se apresenta e qualquer
gesto de transformação pode vir
a ser inundado pelo sentimento do amor.
A
compreensão da importância e do
valor de participar da criação
do mundo, através daquilo que está
ao alcance das nossas mãos e do nosso
intelecto, dá origem à emoção
e à nossa consciência de contribuição
e serviço.
É
através de todas essas formas de participação
e da disciplina que o trabalho requer, que a
integração do homem com sua natureza
e seu trabalho se efetua e se torna parte insolúvel
de sua vida cotidiana.
Liderar
ou compor-se, somente, como "mais um",
ganhar muito ou, simplesmente, ganhar o pão
de cada dia, ter maior ou nenhum prestígio,
influir, decidir e controlar ou, humildemente,
participar, nada disso altera as verdades fundamentais.
As mãos humanas foram feitas para trabalhar
e para acariciar. A sua mente foi feita para
raciocinar, planejar e para divagar, imaginar.
O
sentimento humano foi feito para amar aquilo
que se faz bem feito, pelo prazer de fazê-lo
e ser grato por participar da transformação
de si mesmo, através da natureza dos
objetos criados, dos relacionamentos e da fé
em D’us.
Os
homens sofrem e reclamam quando não progridem,
quando não lhes é dado superar
suas dificuldades e viver melhor. Querem alçar
vôo, seguir atrás de seus sonhos,
compartilhar experiências e descobrir
novidades. Precisam ir além da mesmice
dos dias e tudo isso é trabalho.
Na
visão espiritual, este não pode
ser considerado como algo distinto das aspirações
dos homens e de sua conduta. Espiritualmente,
já nascem motivados para se superar.
A consciência espiritual é o instrumento,
por excelência, que intensifica e amplia
a experiência de trabalho na vida cotidiana
e não o contrário. Não
é trabalhando que o homem se eleva moral
e espiritualmente. É com a fé
e a gratidão que o homem eleva o seu
trabalho, qualquer que ele seja.
Assim
sendo, a visão ou a experiência
espiritual de uma pessoa, desemboca numa conduta
mais responsável e profunda. O trabalho
não é um patamar para alçar
novas conquistas, nem é um prazer para
ser desfrutado, simplesmente. É uma parte
integrante da expressão da nossa espiritualidade,
tanto quanto os nossos relacionamentos, as amizades
e as famílias que formamos, os demais
papéis e envolvimentos que degustamos
na vida social como um todo.
Quem
busca, então, um trabalho digno, à
sua altura, precisa ter em mente que é
necessário envolvê-lo, antes de
qualquer coisa, no sentimento de amor ao trabalho
e, sem dúvida, será conduzindo
a um envolvimento cada vez maior com a vida
moral e a conduta ética, tanto no trabalho
como em seu lar.
E,
por outro lado, quem promove os valores familiares
e as verdades morais, logo haverá de
compreender os componentes espirituais dos mesmos.
Haverá de perceber que, ao integrar sua
espiritualidade, através do amor, ao
seu labor, poderá ampliar e intensificar
o seu poder de criar e divulgar sua mensagem,
seja uma idéia, um produto, uma ação.