Para
enfrentar a fase da aposentadoria, a pessoa
deverá estar ciente de que, não importa quão
competente seja, ou quão imprescindível se considera,
já passou a ocupar os primeiros lugares da fila
de demissão e, uma vez fora da empresa, estará
se debatendo, não só com a competitividade e
os dilemas do mundo do trabalho, mas com os
desafios de toda uma nova situação de vida.
É
quando será, efetivamente, testado o seu Q.A. ou a sua capacidade de adaptação em
situações adversas. E o que vem a ser
esta capacidade?
Trata-se, somente, da diferença
entre o sucesso e o fracasso na aposentadoria.
E isso não significa padrão de vida, mas qualidade.
Inúmeras inteligências, brilhantes no meio empresarial,
perdem-se nesta fase por falta de capacidade
de adaptação ou baixo Q.A.
Sucesso
na carreira ou nos negócios pressupõe o desenvolvimento
e a aquisição de uma grande especialização de
conhecimentos e atitudes. Se, por um lado isso
garante um excelente desempenho no trabalho,
ampliando a nossa visão e fortalecendo os processos
de tomada de decisão, por outro conduz a uma
espécie de cegueira quanto a outras oportunidades
que desfilam a nossa frente quase todos os dias,
oportunidades que não enxergamos por não estarmos
nem habituados, nem motivados a busca-las.
O
fato é que, por mais bem sucedido que tenha
sido um profissional em seu percurso, o mundo
mudou e o perfil dos mais velhos e dos mais
experientes, está distante daquele que se exige
hoje. E a antiga formação profissional tem pouco
ou nada a ver com o que se valoriza, atualmente,
no mercado: juventude, flexibilidade, domínio
de línguas e de novas técnicas, especialmente
a informática, disposição para mudanças – inclusive
de residência, além de outros deslocamentos,
criatividade e aceitação inicial para "começar
por baixo".
Agora,
não só as competências profissionais estarão
na berlinda, mas a personalidade e o próprio
caráter. O networking,
tão arduamente construído, depois de não mais
do que seis meses fora de uma empresa, despenca.
As novas consultorias já mencionam o netliving.
As verdadeiras amizades que se estabeleceram
ao longo da vida é que vão se importar com mais alguém. Os relacionamentos movidos
por interesse profissional, alimentados em torno
de um cargo ou posição, mostrar-se-ão absolutamente
volúveis e descomprometidos.
Essa
perda de relacionamentos é um grande baque,
para quem está na situação de "excluído"
ou, pior ainda, "indesejável".
Uma coisa é ouvir (e se divertir com) as histórias
dos outros, outra coisa é sentir na própria
pele as longas horas passadas em casa, onde
a presença do homem não é muito bem vinda, a
não ser na qualidade do "Jaqui", o conhecido e sempre disponível auxiliar
(Já que você está aí, dá para você...?)
ou como um incômodo na vida da esposa e dos
filhos (Mãe, agora esse homem vai ficar por aqui, pegando
no pé da gente?!). Se mulher, com certeza
o resto da família vai "cair de pau" em cima: Agora é a tua vez de ficar aí cuidando...!
Você nunca ajudou com nada,
a não ser com dinheiro!
Após
desligar-se da empresa, quando mudam as responsabilidades,
quando são outros os desafios, é que a pessoa
mais velha vai ver se está madura ou não para dar conta de tanta novidade! Seu
positivismo, será autêntico? Conseguirá inovar
e inovar-se? Estará disposta a aprender, a crescer
e se aperfeiçoar ou vai acreditar que só
sabe fazer aquilo que sempre fez e que
já passou da idade, não vai mais mudar?!
Esta
é a hora de encarar os mais complexos e difíceis
desafios. Somente a Escola da Vida é que terá
ensinado e, não, um diploma de Master ou PhD
em qualquer área. Ter saúde e disposição para
recupera-la e mantê-la, saber se relacionar
com afeto e real interesse pelas pessoas e pelo
vasto mundo ao redor, assumir a plena responsabilidade
pelo seu futuro de mais uns vinte a trinta anos
pela frente, abrir a cabeça e adquirir mais
conhecimentos em muitas outras áreas, além da
profissional, é tudo isso e muito mais que nos
espera.
As
pessoas com baixo Q.A. são
as que desistem. Quantas você
conhece que ficaram velhas antes da hora,
pararam no tempo, como se diz? Deixam-se
abater, ficam deprimidas e não procuram auxílio.
Nem reconhecem que estão deprimidas!
Seu nervosismo, sua irritabilidade, impaciência
e desatenção passam a ser os traços marcantes
de sua personalidade.
Pessoas
de baixo Q.A. não exploram
todo o seu potencial, acomodam-se no já
conhecido de si mesmas. Sentem-se desamparadas,
mas podem disfarçar seu desamparo ao ficar
se metendo onde não são chamadas e querendo
cuidar da vida dos outros. Adoecem mais
facilmente e ficam confusas e perturbadas, perdidas
nos problemas. Sentem-se humilhadas por precisar
recomeçar, arquivam suas boas idéias e acampam
no meio da viagem, sem explorar todo o
espaço e o tempo que têm pela frente.
Se
isso é aposentar-se, então, que se aposente
a aposentadoria! A alternativa é empreender
uma nova jornada, onde o autoconhecimento, os
principais valores de caráter e a atitude básica
de solidariedade e cooperação é que vão ditar
as regras do novo viver com dignidade, nessa
fase em que já não se é mais jovem, mas a velhice
ainda está bem longe de chegar!
Aliás,
para quem quer saber, essa questão de velhice
não passa de uma tremenda invenção. Mas essa
é uma outra história para se contar. Por enquanto,
falemos de flexibilidade emocional e intelectual
e, de firmeza de caráter, enquanto matéria prima
da nossa capacidade de nos adaptar.