ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL

 
O TEMPO É AGORA
 
Por Ana Perwin Fraiman
 

Com certeza um dos indicativos da crise da maturescência é a sensação de premência com relação ao Tempo.

Num dado momento o horizonte temporal se estreita, gerando um sentimento de "não é mais para mim"; noutro momento o horizonte temporal se alarga: "É agora ou nunca mais!".

Já suficientemente experiente para saber de seu próprio valor, mas não tão vivida ainda, a pessoa começa a se embaralhar em seus planos e expectativas, sem saber direito o que quer da vida.

Tudo é questionável. As relações familiares ficam tensas. É muita transformação. Filhos crescidos e pais envelhecidos. Não raro passam a conviver, sob o mesmo teto, quatro gerações.

Neste momento específico de sua vida, na passagem da maturidade para a meia idade, as perguntas mudam, face às respostas que já foram dadas.

Um dia, lá atrás, alguém perguntou: "O que você quer ser quando crescer?" E riram de nós, como rimos de nossos filhos, quando respondíamos orgulhosos: "guarda de trânsito"!, "piloto de avião"!, "quero ser aquele que manda"!

Enfim, qualquer um de nós sonhou em ser artista, poderoso, habilidoso, bonito, capaz. E muitos chegamos perto. Outros foram além. Agora a pergunta é outra: o que você quer ser quando envelhecer?

Tenho observado a "mania" que as pessoas têm de querer queimar etapa. Tudo prá já! Mas, velhice? Para que apressar?

Sabe, aquela urgência de mudança? Por não saber exatamente o que fazer, muita gente resolve simplesmente envelhecer. Larga mão das coisas, da saúde, da beleza, das atividades...

"O que você faz na vida? "

"Sou aposentado. Faço nada".

Na verdade, aposentadoria define mais uma falta de ocupação do que os interesses de uma pessoa. É uma condição mais previdenciária que ocupacional, porque se subentende que aposentado, hoje em dia, é inativo, desocupado. Então, é difícil entender aqueles que se definem mais pelo que não fazem do que por aquilo que são.

O fato é que as pessoas, consciente ou inconscientemente, buscam ser iguais aos seus modelos de infância e juventude. Naquela época, há 40, 50 anos atrás, os de 60 eram mesmo velhos.

Viviam como dependentes ou estavam doentes. Hoje, se formos seguir o mesmo caminho, vamos queimar etapa, porque os progressos do mundo nos permitem levar mais tempo para começar a envelhecer. Ou seja, é cada vez mais freqüente que se chegue inteiro e bem-disposto aos 80, e ainda com vontade de casar!

Em outras palavras, não se passa mais tempo na condição de velhice, mas surge o fenômeno da meia idade, que empurrou o tempo de ficar velho umas boas décadas para frente.

Os anos de vida que se acrescentaram não se inserem nem na infância, nem na senectude, mas idade adulta madura.

É por isso que muitos não sabem o que fazer consigo nesse tempo.

As sociedades não estão organizadas para fazer face a esse processo, de tanta gente já aposentada reivindicando respeito, valorização, ocupação. Gente capaz, com vontade de trabalhar, de contribuir, de participar.

Gente que se olha no espelho e busca uma nova identidade. Gente que não está mais se conformando em sair da frente e dar espaço para os mais jovens. Gente que quer saber, sim: "E 'nós? E agora?!"

Gente que quer crescer na vida ao seu tempo e entende que o melhor tempo da vida é o que está à disposição, é o que se cria, é o que se aproveita.

Agora e a cada nova hora. O tempo, ele próprio, passa a ter o seu valor. A maturidade nos traz esse conhecimento.

"O que você quer ser quando envelhecer? "

Quer responder que já sabe, já começou? Ou quer deixar para daqui um bom tempo, para com 80, 90, pode dizer: "Envelhecer? Sim, é uma boa hora para começar a pensar nisso!..."