Com
certeza um dos indicativos da crise da maturescência
é a sensação de premência
com relação ao Tempo.
Num dado momento o horizonte temporal se estreita,
gerando um sentimento de "não é
mais para mim"; noutro momento o horizonte
temporal se alarga: "É agora ou
nunca mais!".
Já
suficientemente experiente para saber de seu
próprio valor, mas não tão
vivida ainda, a pessoa começa a se embaralhar
em seus planos e expectativas, sem saber direito
o que quer da vida.
Tudo
é questionável. As relações
familiares ficam tensas. É muita transformação.
Filhos crescidos e pais envelhecidos. Não
raro passam a conviver, sob o mesmo teto, quatro
gerações.
Neste
momento específico de sua vida, na passagem
da maturidade para a meia idade, as perguntas
mudam, face às respostas que já
foram dadas.
Um
dia, lá atrás, alguém perguntou:
"O que você quer ser quando crescer?"
E riram de nós, como rimos de nossos
filhos, quando respondíamos orgulhosos:
"guarda de trânsito"!, "piloto
de avião"!, "quero ser aquele
que manda"!
Enfim,
qualquer um de nós sonhou em ser artista,
poderoso, habilidoso, bonito, capaz. E muitos
chegamos perto. Outros foram além. Agora
a pergunta é outra: o que você
quer ser quando envelhecer?
Tenho
observado a "mania" que as pessoas
têm de querer queimar etapa. Tudo prá
já! Mas, velhice? Para que apressar?
Sabe,
aquela urgência de mudança? Por
não saber exatamente o que fazer, muita
gente resolve simplesmente envelhecer. Larga
mão das coisas, da saúde, da beleza,
das atividades...
"O
que você faz na vida? "
"Sou
aposentado. Faço nada".
Na
verdade, aposentadoria define mais uma falta
de ocupação do que os interesses
de uma pessoa. É uma condição
mais previdenciária que ocupacional,
porque se subentende que aposentado, hoje em
dia, é inativo, desocupado. Então,
é difícil entender aqueles que
se definem mais pelo que não fazem do
que por aquilo que são.
O
fato é que as pessoas, consciente ou
inconscientemente, buscam ser iguais aos seus
modelos de infância e juventude. Naquela
época, há 40, 50 anos atrás,
os de 60 eram mesmo velhos.
Viviam
como dependentes ou estavam doentes. Hoje, se
formos seguir o mesmo caminho, vamos queimar
etapa, porque os progressos do mundo nos permitem
levar mais tempo para começar a envelhecer.
Ou seja, é cada vez mais freqüente
que se chegue inteiro e bem-disposto aos 80,
e ainda com vontade de casar!
Em
outras palavras, não se passa mais tempo
na condição de velhice, mas surge
o fenômeno da meia idade, que empurrou
o tempo de ficar velho umas boas décadas
para frente.
Os anos de vida que se acrescentaram não
se inserem nem na infância, nem na senectude,
mas idade adulta madura.
É
por isso que muitos não sabem o que fazer
consigo nesse tempo.
As
sociedades não estão organizadas
para fazer face a esse processo, de tanta gente
já aposentada reivindicando respeito,
valorização, ocupação.
Gente capaz, com vontade de trabalhar, de contribuir,
de participar.
Gente que se olha no espelho e busca uma nova
identidade. Gente que não está
mais se conformando em sair da frente e dar
espaço para os mais jovens. Gente que
quer saber, sim: "E 'nós? E agora?!"
Gente
que quer crescer na vida ao seu tempo e entende
que o melhor tempo da vida é o que está
à disposição, é
o que se cria, é o que se aproveita.
Agora
e a cada nova hora. O tempo, ele próprio,
passa a ter o seu valor. A maturidade nos traz
esse conhecimento.
"O
que você quer ser quando envelhecer? "
Quer
responder que já sabe, já começou?
Ou quer deixar para daqui um bom tempo, para
com 80, 90, pode dizer: "Envelhecer? Sim,
é uma boa hora para começar a
pensar nisso!..."