Não
tenham medo de mim! Estou ferido, sim, mas preciso
que me tratem com firmeza e, não, com
excesso de delicadeza, como se flor de estufa
eu fosse.
Prefiro
que falem comigo olhando nos meus olhos e me
dizendo, com clareza, as durezas que haverei
de enfrentar. Isto fará com que me sinta
mais inteiro. Mais seguro e confiante, mesmo
estando assim, tão abatido.
Não
procurem me estragar com muitos mimos, tentando
me poupar da verdade dos fatos. Não me
corrompam, buscando tornar mais leve essa minha
aflição. Sei que não posso
ter tudo que quero e quero desejar um bom trabalho
que, necessariamente, não é o
de vocês.
Quando
eu falar a respeito, não se sintam cobrados
pelos meus anseios. Vocês nada me devem
e eu devo, preciso falar a respeito, senão,
corro o risco de implodir. É provável
que eu me esqueça de que é hora
de trabalhar, pois me verei tentado ao descanso.
E que não saiba, igualmente, descansar.
Todos trabalham!
Não
falem de mim pelas costas, nem com piedade,
nem com raiva. Da primeira, já sofro
bastante. A segunda, prefiro enfrentar de frente.
Porém, não na presença
de estranhos. Por isso, procure manter alguma
espécie de intimidade comigo, para que
voltemos a conversar com calma e em particular.
Ouvirei mais, algum conselho em especial, se
você antes, me perguntar se quero ouvi-lo.
Não
me protejam das conseqüências dos
meus erros e, muito menos, dos meus acertos!
Talvez eu resolva que é hora de aprender
a usufruir. Ainda que áspero, este pode
ser um bom caminho. Mesmo que, ao trilhá-lo,
eu me arrebente mais um pouco, não levem
muito a sério minhas pequenas dores.
Eu as criarei em grande quantidade, para não
precisar sentir as grandes. É uma manobra
tática infantil, bem sei, mas que ajuda
nessas horas de crise... Além disso,
de grandes dores as pessoas se afastam horrorizadas,
talvez com receio de contágio. Ou pelo
horror de perceber que se comprazem, por terem
sido poupadas.
A
maioria sabe ser solidária somente nas
pequenas desgraças, onde podem intervir.
Ademais, pequenas dores se prestam a atrair
muitas das atenções, de que estou
e estarei, por um bom tempinho, bastante necessitado.
Por isso, não se irritem comigo, nem
me façam promessas que não poderão,
não desejarão cumprir. Estou,
por demais, vulnerável a acreditar em
qualquer palpite e a esperar que suas palavras
se cumpram... Um pequeno desapontamento, neste
momento, vai me parecer um enorme abandono...
Se
me sentir forçado a alguma atitude, aposto
dez contra um, que farei exatamente o contrário!
Afinal, preciso sentir que ainda tenho controle
sobre alguma coisa!
Não
me ponham muito à prova. Sou honesto,
sim, embora seja um mentiroso. Minto, todos
os últimos minutos de minha vida, que
isso não me aconteceu e, sim, ao outro
de mim. Esse, que agora fala, eu não
conheço! Conhecia aquele, que sofreu
dispensa e, mesmo dele, eu sei tão pouca
coisa. Ele, menos ainda, sabe de mim... Nos
separamos quando meninos. Se você procurar
por mim, é certo que ele se antecipará
e quererá tomar as rédeas do assunto.
Se procurar por ele, responderei tímido
em seu lugar, pois já não sei
muito o que dizer. Nunca passei por isso antes.
E há muito, muito tempo, não falo
só por mim...
Outra
coisa, nada de Deus nesta hora. Estou bravo
com ele! Muito bravo. Se Ele é de amor,
agora eu sou de vingança! Estou afastado
d’Ele. Inconformado. Mais ainda, revoltado.
Nada fiz por merecer isso e Ele terá
que me dar boas explicações, antes
que eu O perdoe! Quero saber como fazer para
pagar minhas dívidas, como viver com
qualidade pelas próximas duas horas!
Se e quando estiverem conversando de dinheiro,
investimentos, aquisições e me
virem chegando, não desconversem. Agüento
saber que outros continuam planejando seu futuro,
enquanto não enxergo uma luz na frente
e só os meus feitos passados me perseguem,
minhas não poucas, mas agora tão
distantes, realizações.
Daqui,
deste buraco profundo em que me encontro, consigo
enxergar melhor as imperfeições.
Principalmente as alheias, antes das minhas
próprias. Ainda procuro culpados e cada
um é uma séria possibilidade de
vir a sê-lo. O primeiro da lista é,
quase sempre, eu.
Ficarei,
no entanto, mais chocado em descobrir os seus
erros, do que os meus, pois preciso, desesperadamente,
enxergar um mundo de pessoas humanas e sensíveis,
um mundo de gentes, e tudo que mais vi na vida
foram só colegas e trabalhadores. Pessoas
verdadeiras? Não as conheci, ainda. Sei
que existem, mas não sei como fazer para
chegar nelas e abordá-las. Ou se serei
abordado. Sinto-me perdido e sozinho e, muito,
muito, desconfiado...
Não
digam que meus temores são bobos, nem
que me tornei paranóico. Sempre fui,
neste mundo de alta competição.
Pessoas sempre foram meus rivais e sair de casa,
só para matar leões! Sinto mais
que temores. Trata-se de puro medo. E eu não
sei sentir somente o medo. Quando ele bate,
me sinto logo apavorado!
Daí
me irrito e vocês pensam que estou bravo.
Não, não estou tão bravo
assim. Simplesmente, não sei sentir nem
medo, nem tristeza e não consigo controlar
esses sentimentos em mim...
Quero me fazer de forte. Mais forte e mais importante
que todos vocês juntos e daí me
afasto, querendo ser procurado, querendo ser
necessitado, já que não me basta
me sentir querido.
Tenho
que ser útil. E não é útil
um homem que não trabalha, nem traz dinheiro
para casa, assim eu penso. Ouvi dizer que além
de útil, se pode ser solidário
e que, talvez, isso me sirva nessa hora. Solidariedade,
porém, não é o meu forte.
Confundi, vezes demais, ser solidário
com ser feito de bobo. Aliás, nem sei
mais do que sou feito. Nem por isso pensem,
por favor, que não tenho personalidade.
Tenho, sim, meu próprio modo de ser.
Só que não consigo colocá-lo
em prática, neste exato momento. Eu sabia,
até ter sido demitido. Agora, preciso
ir atrás de mim...
Outra
coisa, evitem ser maledicentes, ao menos na
minha frente. Já estou por demais intoxicado.
Brigas, conflitos, malvadezas, me revoltam o
estômago e me tornam ainda mais intolerante
ao convívio e à recuperação
da fé.
Estou
precisando experimentar as coisas por mim mesmo
e é provável que precise aprender
quase tudo, de novo, sem saber se ainda tenho
idade ou tempo suficientes para ser bem sucedido.
Sei, no entanto, que já não posso
sonhar com tudo. Que para algumas coisas eu
não dou, mesmo. Só que não
sei, quais elas são.
Principalmente,
não desistam de me falar de coisas boas
e me incluam como uma delas. Falem bem, especialmente
de mim, desde que seja sincero. Não inventem.
Não mintam para mim, nem por bem. Se
não estiver aprendendo, lembrem-se, estou
fazendo meu melhor possível. Se tudo
que quis na vida, foi enfrentar um grande desafio,
penso que chegou a hora: preciso saber de mim!
No
futuro, com carinho, vocês mesmos colherão
os frutos de tudo aquilo que, neste meu momento
de dor, vocês me oferecerem. E, quem sabe,
se eu estiver de novo trabalhando, em negócio
próprio ou de volta, como empregado,
eu encontre, também, um tempo para animar
aquele de vocês que estiver precisando,
tanto quanto eu preciso hoje...