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ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL

 
PRECISO SABER DE MIM
Pedido de um profissional recém demitido aos seus pares
 
Por Ana Perwin Fraiman
 

Não tenham medo de mim! Estou ferido, sim, mas preciso que me tratem com firmeza e, não, com excesso de delicadeza, como se flor de estufa eu fosse.

Prefiro que falem comigo olhando nos meus olhos e me dizendo, com clareza, as durezas que haverei de enfrentar. Isto fará com que me sinta mais inteiro. Mais seguro e confiante, mesmo estando assim, tão abatido.

Não procurem me estragar com muitos mimos, tentando me poupar da verdade dos fatos. Não me corrompam, buscando tornar mais leve essa minha aflição. Sei que não posso ter tudo que quero e quero desejar um bom trabalho que, necessariamente, não é o de vocês.

Quando eu falar a respeito, não se sintam cobrados pelos meus anseios. Vocês nada me devem e eu devo, preciso falar a respeito, senão, corro o risco de implodir. É provável que eu me esqueça de que é hora de trabalhar, pois me verei tentado ao descanso. E que não saiba, igualmente, descansar. Todos trabalham!

Não falem de mim pelas costas, nem com piedade, nem com raiva. Da primeira, já sofro bastante. A segunda, prefiro enfrentar de frente. Porém, não na presença de estranhos. Por isso, procure manter alguma espécie de intimidade comigo, para que voltemos a conversar com calma e em particular. Ouvirei mais, algum conselho em especial, se você antes, me perguntar se quero ouvi-lo.

Não me protejam das conseqüências dos meus erros e, muito menos, dos meus acertos! Talvez eu resolva que é hora de aprender a usufruir. Ainda que áspero, este pode ser um bom caminho. Mesmo que, ao trilhá-lo, eu me arrebente mais um pouco, não levem muito a sério minhas pequenas dores. Eu as criarei em grande quantidade, para não precisar sentir as grandes. É uma manobra tática infantil, bem sei, mas que ajuda nessas horas de crise... Além disso, de grandes dores as pessoas se afastam horrorizadas, talvez com receio de contágio. Ou pelo horror de perceber que se comprazem, por terem sido poupadas.

A maioria sabe ser solidária somente nas pequenas desgraças, onde podem intervir. Ademais, pequenas dores se prestam a atrair muitas das atenções, de que estou e estarei, por um bom tempinho, bastante necessitado. Por isso, não se irritem comigo, nem me façam promessas que não poderão, não desejarão cumprir. Estou, por demais, vulnerável a acreditar em qualquer palpite e a esperar que suas palavras se cumpram... Um pequeno desapontamento, neste momento, vai me parecer um enorme abandono...

Se me sentir forçado a alguma atitude, aposto dez contra um, que farei exatamente o contrário! Afinal, preciso sentir que ainda tenho controle sobre alguma coisa!

Não me ponham muito à prova. Sou honesto, sim, embora seja um mentiroso. Minto, todos os últimos minutos de minha vida, que isso não me aconteceu e, sim, ao outro de mim. Esse, que agora fala, eu não conheço! Conhecia aquele, que sofreu dispensa e, mesmo dele, eu sei tão pouca coisa. Ele, menos ainda, sabe de mim... Nos separamos quando meninos. Se você procurar por mim, é certo que ele se antecipará e quererá tomar as rédeas do assunto. Se procurar por ele, responderei tímido em seu lugar, pois já não sei muito o que dizer. Nunca passei por isso antes. E há muito, muito tempo, não falo só por mim...

Outra coisa, nada de Deus nesta hora. Estou bravo com ele! Muito bravo. Se Ele é de amor, agora eu sou de vingança! Estou afastado d’Ele. Inconformado. Mais ainda, revoltado. Nada fiz por merecer isso e Ele terá que me dar boas explicações, antes que eu O perdoe! Quero saber como fazer para pagar minhas dívidas, como viver com qualidade pelas próximas duas horas!

Se e quando estiverem conversando de dinheiro, investimentos, aquisições e me virem chegando, não desconversem. Agüento saber que outros continuam planejando seu futuro, enquanto não enxergo uma luz na frente e só os meus feitos passados me perseguem, minhas não poucas, mas agora tão distantes, realizações.

Daqui, deste buraco profundo em que me encontro, consigo enxergar melhor as imperfeições. Principalmente as alheias, antes das minhas próprias. Ainda procuro culpados e cada um é uma séria possibilidade de vir a sê-lo. O primeiro da lista é, quase sempre, eu.

Ficarei, no entanto, mais chocado em descobrir os seus erros, do que os meus, pois preciso, desesperadamente, enxergar um mundo de pessoas humanas e sensíveis, um mundo de gentes, e tudo que mais vi na vida foram só colegas e trabalhadores. Pessoas verdadeiras? Não as conheci, ainda. Sei que existem, mas não sei como fazer para chegar nelas e abordá-las. Ou se serei abordado. Sinto-me perdido e sozinho e, muito, muito, desconfiado...

Não digam que meus temores são bobos, nem que me tornei paranóico. Sempre fui, neste mundo de alta competição. Pessoas sempre foram meus rivais e sair de casa, só para matar leões! Sinto mais que temores. Trata-se de puro medo. E eu não sei sentir somente o medo. Quando ele bate, me sinto logo apavorado!

Daí me irrito e vocês pensam que estou bravo. Não, não estou tão bravo assim. Simplesmente, não sei sentir nem medo, nem tristeza e não consigo controlar esses sentimentos em mim...
Quero me fazer de forte. Mais forte e mais importante que todos vocês juntos e daí me afasto, querendo ser procurado, querendo ser necessitado, já que não me basta me sentir querido.

Tenho que ser útil. E não é útil um homem que não trabalha, nem traz dinheiro para casa, assim eu penso. Ouvi dizer que além de útil, se pode ser solidário e que, talvez, isso me sirva nessa hora. Solidariedade, porém, não é o meu forte. Confundi, vezes demais, ser solidário com ser feito de bobo. Aliás, nem sei mais do que sou feito. Nem por isso pensem, por favor, que não tenho personalidade. Tenho, sim, meu próprio modo de ser. Só que não consigo colocá-lo em prática, neste exato momento. Eu sabia, até ter sido demitido. Agora, preciso ir atrás de mim...

Outra coisa, evitem ser maledicentes, ao menos na minha frente. Já estou por demais intoxicado. Brigas, conflitos, malvadezas, me revoltam o estômago e me tornam ainda mais intolerante ao convívio e à recuperação da fé.

Estou precisando experimentar as coisas por mim mesmo e é provável que precise aprender quase tudo, de novo, sem saber se ainda tenho idade ou tempo suficientes para ser bem sucedido. Sei, no entanto, que já não posso sonhar com tudo. Que para algumas coisas eu não dou, mesmo. Só que não sei, quais elas são.

Principalmente, não desistam de me falar de coisas boas e me incluam como uma delas. Falem bem, especialmente de mim, desde que seja sincero. Não inventem. Não mintam para mim, nem por bem. Se não estiver aprendendo, lembrem-se, estou fazendo meu melhor possível. Se tudo que quis na vida, foi enfrentar um grande desafio, penso que chegou a hora: preciso saber de mim!

No futuro, com carinho, vocês mesmos colherão os frutos de tudo aquilo que, neste meu momento de dor, vocês me oferecerem. E, quem sabe, se eu estiver de novo trabalhando, em negócio próprio ou de volta, como empregado, eu encontre, também, um tempo para animar aquele de vocês que estiver precisando, tanto quanto eu preciso hoje...

 
 

 
 
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