Edição 1979 . 25 de outubro de 2006   

 
Como detectar sintomas de stress ou depressão nos filhos
 
 

 

Para os pais, muitas vezes é difícil admitir que o filho tem problemas, mas os distúrbios podem surgir independentemente da competência na criação. Se um problema está instalado, cabe aos pais ajudar o filho a buscar respostas para os sintomas de sofrimento. "Fazer isso significa também planejar o futuro e, conseqüentemente, diminuir ou neutralizar a carga de stress frente às incertezas do futuro", diz Vera Zimmermann, professora do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo, onde coordena o ambulatório do Centro de Referência da Infância e Adolescência.

Os pais podem ajudar o filho a buscar sentido no próprio comportamento e nas expressões afetivas. Se, por exemplo, a criança agride alguém, é importante questionar e buscar o motivo da raiva, para descobrir relações de causa e efeito. Em situações mais dramáticas, a conversa também é o melhor caminho. Em caso de morte, por exemplo, é preciso não ignorar o fato e ser claro, mas com suavidade. "Não adianta dizer que o familiar que morreu foi para o céu. É preciso explicar que acabou e se solidarizar com a criança", explica Maria Cecília Corrêa de Faria, psicanalista, professora da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Questões cotidianas, como a troca de escola ou de uma babá que já acompanha a criança há bastante tempo, também requerem sensibilidade, por se tratar de um tipo de perda. Até os quatro anos, a troca deve ser feita com cuidado especial, recomendam os especialistas. Uma sugestão é que, em vez de depreciar os serviços ou o caráter da babá (mesmo que esse seja o verdadeiro motivo), os pais expliquem que ela deixou a casa porque tinha outros planos familiares.

Especialistas apontam que é cada vez mais freqüente o surgimento de crianças estressadas por causa de agendas carregadas de compromissos que nem sempre espelham os desejos dos filhos, e sim dos pais. A cobrança de desempenho acaba se refletindo na intenção de preparar os filhos o quanto antes para os desafios práticos da vida adulta. A infância passa a ser encarada pelos pais apenas como uma fase de preparação para as metas de um adulto, em vez de ser um período que deve ser aproveitado plenamente. Uma agenda lotada de cursos extracurriculares, que não estejam alinhados com o perfil e desejo da criança, pode acabar tendo um efeito estressante. Ainda que a grade escolar seja em tempo integral, é preciso que a criança tenha tempo para brincar e afinar os laços familiares para desenvolver confiança, senso de limites e autoridade, mas sem autoritarismo.

Identificar quando uma criança está enfrentando problemas não é fácil. Nem todas conseguem verbalizar o motivo de seu estado de espírito. O sofrimento psíquico tende a ser revelado na conduta, com isolamento ou hiperatividade, ou sob a forma de sintomas psicossomáticos, como infecções sistemáticas. Por outro lado, uma criança que está se desenvolvendo bem brinca, tem interesse em relacionar-se com as pessoas da família e, posteriormente, com outras, demonstra curiosidade e costuma ser produtiva, sobretudo para conseguir valorização e desenvolver a auto-estima. Choro freqüente sem motivação clara, falta de concentração nas atividades, irritação, tristeza e problemas persistentes de sono e alimentação são sinais de alerta para crianças entre zero e três anos. Nessa idade, a criança que não responde à comunicação, nem busca a atenção dos adultos, pode estar sinalizando manifestações depressivas ou de stress.

A partir dos três anos, os sintomas preocupantes estão relacionados com o interesse na socialização. A criança pode resistir a criar novos vínculos, não ter vontade de brincar ou explorar os ambientes que freqüenta. Nessa fase, os medos que já tinham sido superados, como de animais, costumam retornar e o desenvolvimento físico e psicomotor também pode ser afetado. Após os seis e até os nove anos, o aprendizado é o canal mais claro de manifestação de problemas, sendo o desinteresse em aprender e a dificuldade na alfabetização os principais avisos. Nesse período pode ocorrer também resistência em aceitar limites colocados por adultos e regras em brincadeiras, além de dificuldade para interagir com colegas. Dos nove aos 12 anos, quando já há mais independência sobre as tarefas diárias, a criança pode demonstrar pouca autonomia na rotina, seja em casa ou nas atividades escolares. Além disso, pode haver mais dificuldade para relacionar-se com os amigos e desinteresse em conhecer novos colegas. Timidez em excesso ou arrogância também permeiam as relações em geral. Nessa época, distúrbios alimentares, em especial a obesidade, podem ser notados.

Na adolescência, quando a busca pela própria identidade e independência é mais forte, a atenção dos pais deve ser redobrada, pois é mais difícil identificar até onde as reações são típicas do período e a partir de que ponto são sintomas patológicos. Nessa fase é importante ficar atento a tendência de isolamento constante e a fuga de situações em que é preciso assumir posições sobre assuntos ou fatos do cotidiano. O jovem não defende opiniões e evita conflitos necessários. Por outro lado, pode reagir com agressões físicas e verbais constantes, sem justificativas válidas, e demonstrar intolerância excessiva com frustrações. O abandono das tarefas e o fracasso escolar, sem que tenha havido uma substituição de interesses, também é um sinalizador. Se, por exemplo, o jovem vai mal na escola, mas, em contrapartida, mostra dedicação em outra área de competência como esportes, o fato é menos preocupante do ponto de vista médico. Pode ocorrer ainda uma preocupação excessiva, ou uma absoluta indiferença, a respeito da profissão que pretende seguir, além de dificuldade permanente em conseguir administrar o estudo com atividades cotidianas como namoro e encontros com amigos e familiares. É bom lembrar que em cada uma das fases é necessário considerar a intensidade e a persistência dos sintomas para saber se há de fato um problema a ser resolvido. Na dúvida, é indicado conversar com um especialista.