As crianças devem saber
o sentir que seus pais são pessoas com
quem podem abrir seu coração e,
não o contrário.
A
atitude de tomar o filho, ou filha, por amigo
e fazer confidências sobre o relacionamento
dos pais entre si, sejam questões de
ordem emocional, sejam questões de ordem
sexual, é uma das piores que se pode
adotar.
As
crianças e os jovens podem ter um desenvolvimento
cognitivo, intelectual, bem avançado
e trabalhar idéias bem elaboradas, mas
isso não significa que tenham maturidade
emocional suficiente para dar conta dos conflitos
entre seus pais.
É
por demais comum que os pais, na ânsia
de ganhar seus filhos como aliados, abram seu
coração de forma desmedida e inadequada:
criticando o outro, contando segredos pessoais
ou conjugais, expondo suas próprias fraquezas.
Mesmo que a criança responda com sensatez
e coerência, seu psiquismo ficará
danificado.
Nenhum
filho deve ser estimulado a tomar partido, sob
o risco de ter o seu próprio coração
partido. Por pior que o pai ou a mãe,
tenha agido, as brigas e separações
são por si só dolorosas. Não
se deve botar o dedo na ferida, fazendo a criança,
o jovem participar daquilo que nem deveria ser
chamado a opinar.
Se
os pais pudessem enxergar o cenário total,
logo compreenderiam que, na sua ânsia
de solucionar problemas conjugais, envolvendo
os filhos, só fazem por aumentá-los,
sacrificando a inocência daqueles jovens
que ainda precisam ser resguardados dos dramas
familiares.
Uma
das maiores necessidades dos adolescentes de
hoje é que os pais lhes forneçam
sistemas de valores éticos e morais para
guiá-los. Desesperados, em meio às
brigas, anseiam por algo que lhes "mostre
como viver" ou "algo a que se apegar".
Precisam de uma orientação superior,
ou seja, precisam sentir-se em paz consigo mesmos,
e ter uma perspectiva sadia sobre como viver
num mundo incerto e desconcertante.
Por
isso envolver os jovens nas brigas de seus pais
é dificultar que eles sintam-se verdadeiramente
amados pois, intimamente, nenhum filho ou filha
pode optar por um dos pais, sem sentir estar
traindo o outro. E se, nos seus sentimentos,
passar a sentir repulsa por um deles, é
como passar a sentir nojo pela própria
vida, pois seus pais, sua família é
tudo que eles têm.
Virar
as costas para qualquer deles trará para
o jovem, como conseqüência, um tremendo
ódio a si mesmo, por não ter conseguido
evitar: nem as brigas, nem seu envolvimento
nas brigas, nem a ambivalência em relação
a todo o acontecido.
Se
o pai é o agressor, o jovem ficará
revoltado com ambos: com o pai, por não
conseguir se conter, com a mãe, por não
saber se defender, com ambos por tê-lo
envolvido em seus problemas e consigo, por não
ter sabido escapar.
Este
ódio autodirigido está na base
dos insucessos que vão além daqueles
que, naturalmente, todos temos que enfrentar
na infância e adolescência. Facilmente
transformam-se em atitudes auto-destrutivas,
ligadas ao álcool, a outros vícios
e, mesmo, à promiscuidade sexual.
Silvia
Helena foi uma criança esperta, de grande
dotação intelectual. Seus pais,
porém, insensatamente, travavam uma luta
constante entre si, que terminavam aos berros
e safanões, com um ou outro pai, ainda
por cima, recriminando: "Olha o que você
está fazendo! Está assustando
a menina! Você é um animal, imbecil!"
Silvia
Helena procurava se apoiar em razões
lógicas e racionais. Seu brilhante intelecto
permitia que ela desse sábios conselhos
a seus pais, sobre como deveriam agir um com
o outro e, por causa dessa sua atitude "ponderada
e madura", a menina tinha sua infância
seqüestrada. Chegada à adolescência,
Silvia Helena não mais suportou ter-se
tornado "mãe de seus pais".
Teve um colapso nervoso e desenvolveu um quadro
de anorexia, uma forma simbólica de seu
desejo de sumir. Hoje está em tratamento
e mora com a avó paterna, pessoa da família
com quem se entende melhor. Seus pais? Continuam
brigando, acusando-se mutuamente de terem mimado
demais a menina, cobrindo-a de presentes, ainda
competindo por ganhar seu afeto e atenção.
Não
é possível superproteger sem hiper-expor.
Tentando
poupar uma criança de problemas no futuro,
muitos pais despejam nas mentes de seus filhos,
todas as suas angústias e frustrações.
Um dos piores conselhos "Não seja
como eu, no futuro" e uma das piores advertências
"Se você não fizer o que eu
espero que você faça, não
gosto mais de você", se combinam
entre si para gerar uma bomba altamente explosiva
no âmago das psiques jovens.
As
crianças passam a maior parte de seu
tempo observando e admirando seus pais, desejando
ser como eles. Da mesma forma, na adolescência,
tudo o que mais desejam é ser diferente
de seus pais, ter identidade própria.
Como, então, escapar desse dilema: ser
tão semelhante a eles quanto desejável
e ser tão diferente deles quanto tolerável?
Rebecca
teve uma infância muito solitária.
"Raspa de tacho", quarta filha, chegada
depois de 16 anos do último irmão,
foi criada como filha única. Boazinha,
cordata, ninguém percebeu, porém,
que seu silêncio e comedimento eram patológicos.
Sua timidez excessiva contrastava com sua família
ruidosa, que se referia a ela como "um
doce de menina", alguém que "não
dava trabalho a ninguém, se criava sozinha".
E era isso, Rebecca cresceu muito sozinha.
Seu
mundo de adultos não lhe permitiu que
rolasse no chão, que sujasse mãos
se rasgasse vestidos. Teve tudo que quis, quase
nunca precisou pedir, pois seus pais e irmãos
se alegravam em antecipar-se a seus desejos
e necessidades. Não aprendeu, com isso,
a buscar, pedir e negociar. Não aprendeu
a trocar. Protegida e paparicada por todos,
aquele "doce de menina" não
podia se testar com outras crianças.
Seus jogos eram todos por demais higiênicos
e seus sentimentos foram telecontrolados.
Tanto
pretendiam entendê-la e satisfazê-la
que lhe disseram, até mesmo, como pensar
e o que sentir. Com toda essa hiper atenção,
Rebecca esteve super exposta ao vazio dentro
de si: não construiu seus próprios
referenciais, hoje não sabe decidir querer.
Não sabe lutar pelo que precisa, tem
medo de toda e qualquer forma de agressão:
das mais leves provocações às
maiores ofensas, Rebecca corresponde entrando
mentalmente em confusão. Serão
necessários anos de análise para
que consiga construir e consolidar sua identidade.
Rebecca tem, hoje, 42 anos de idade.
Não
melhor, nem pior. Só diferente.
Esta
é uma das principais tarefas vivenciais
do adolescente, que precisa aprender a negociar
limites e viver com disciplina. Disciplina é
diferente de obediência, pois esta pressupõe
prêmios e castigos, arbitrados pelos outros,
enquanto aquela pressupõe gratificações
e frustrações mediadas pela própria
consciência e determinação.
Na
obediência o jovem deixa-se subjugar pela
força da vontade de seus pais, professores
e, talvez, de um irmão maior. Na disciplina
o jovem deixa-se levar pela sua própria
força de vontade.
Jovens
submetidos à obediência, tendem
a mostrar-se estouvados, onde se escondem seus
sentimentos de insegurança e inadaptação.
Através de muitas de suas ousadas façanhas
buscam tranqüilizar-se quanto ao seu próprio
valor e importância. Jovens ensinados
a ser disciplinados têm seus temores apaziguados
pelos elogios e demonstração de
confiança, por parte de seus pais e vão
além: sentem-se notados e respeitados.
Uma das melhores atitudes a tomar com filhos,
crianças ou adolescente é validar
suas percepções, idéias
e sentimentos: um palavrão, numa hora
de alta frustração, pode ser tolerado.
O desejo de "acabar com o outro",
também, como simples expressão
de muita raiva. Mas, não atirar coisas
no chão ou causar danos a pessoas, não
importando o tamanho da raiva ou frustração.
Se fizer, terão que repor, pedir desculpas
e consertar o estrago. Isso significa: vincular
uma liberdade a uma responsabilidade.
Sem
nenhum cheiro de chantagem, é possível
subordinar algumas exigências dos adolescentes
a sua capacidade de ganho. Por exemplo: o jovem
deseja, ardentemente, um computador. Os pais
podem propor pagar a metade. Se o jovem não
tiver o dinheiro, pode-se propor que ele, ou
ela, pague a sua parte com um dinheirinho que
vier a ganhar no futuro, fruto de seu trabalho,
ou tirando do presente que ganhar de aniversário.
E não se deve voltar atrás, com
"culpa" por cobrar o combinado.
Pode-se,
também, confessar ignorância em
certos assuntos, mas não se deve –
simplesmente – delegar ao pai, à
mãe, ao professore ou psicólogo,
a habilidade no tratamento e enfrentamento de
algumas questões complicadas. Em vez
de "fale com seu pai, se ele deixar eu
deixo". Conversar antes com o cônjuge
e dizer: "eu e seu pai, em conjunto, decidimos
que...". isso acaba com a enrolação
e a falsa impressão de poder que os adolescentes
têm de si, quando começam a manipular
seus pais e extrair vantagens para si de ambos
os lados.
Não
tolerar manipulações, tanto quanto
não manipular.
Há
um jogo comum nas famílias disfuncionais:
o pseudo-retardamento. Ou seja, no lugar de
se esforçar e perseverar, a pessoa logo
desiste, às primeiras dificuldades encontradas.
"Ah, eu não dou para isso!"
é a palavra de ordem.
Como
ensinar a perseverança, quando tudo que
o filho assiste é um de seus pais, ou
ambos, persistir... nos seus próprios
limites, sem desafiá-los.
A
família deve prover incentivos à
superação dos limites. Isso requer:
a exclusão de qualquer forma de brutalidade,
de negligência e de acomodação.
O
abandono emocional e a omissão tomam
forma de "longas horas frente ao computador",
"madrugadas insones" e "ausências
do lar, sem dar satisfação de
onde se está". Seja por parte de
pais, ou de filhos, este sistema traz penosas
conseqüências e promove a obtusidade
mental.
Quando
se fala em não manipular pessoas, pais
e/ou filhos, falamos em aprender a conviver.
É preciso, inclusive, considerar que
o cérebro humano tem a capacidade fantástica
de interferir na química cerebral de
outrem. É o chamado "criar clima".
Desta qualidade humana decorre que: se os pais
tratarem seus filhos como idiotas, a tendência
é a de que eles passem a agir tal como.
Ou seja, perderão em discernimento.
Da
mesma forma, ser sincero nos elogios, cuidadoso
e adequado nas críticas, faz com que
os valores morais e dentre eles, as virtudes,
como a ternura, a integridade pessoal e a coragem
se fortifiquem.
Uma
das coisas é dar uma bronca, ficar bravo
com o que o filho, ou filha, fez. Outra coisa
é ficar com raiva da criança ou
do jovem, porque os pais sentiram que perderam
o controle da situação.
Na
maior parte das vezes, as brigas decorrem muito
mais da falta de paciência e do sentimento
de fracasso dos próprios pais, do que
da gravidade daquilo que foi feito, ou não
foi feito, pelos filhos.
Uma
coisa é certa: para bem educar, é
necessário se auto-educar. Em matéria
de educação, o exemplo continua
sendo a melhor pedida.