Um
dos possíveis ganhos de quem está fora do mercado
de trabalho, num processo de outplacement,
ou buscando por si próprio outras oportunidades,
é "ter mais tempo para conviver mais com a família".
Só que as coisas não são tão simples assim...
A família pode não estar preparada para esta
convivência mais estreita.
Se
você gosta de desafios com "d" maiúsculo, este
é um deles. Se para algumas pessoas este será
um tempo a ser lembrado, futuramente, com carinho,
pelos momentos compartilhados, para outras pode
tornar-se um tormento, a ser o quanto antes
ultrapassado.
Com
cuidados, a maioria pode obter muito êxito
em mais este empreendimento. É bem a hora de
ser sensível e delicado, além de razoável. E
é muito válido saber de algumas coisas. As próximas
dicas podem ser de muita utilidade.
Estar acessível é diferente de estar
disponível.
"Estar acessível " significa dar chances de
ser encontrado e, de algum modo, procurar ouvir
o que os familiares precisam: alguma ajuda,
algum incentivo, algum elogio. Isso não precisa
acontecer exatamente na hora em que se é buscado,
mas eles têm que saber que você logo
irá responder aos chamados. Que você demonstra
interesse, mesmo que naquele momento não possa
estar presente. Isto dá a eles um sentimento
de proteção. E a você, de utilidade.
"Estar
disponível" significa estar presente, se não
física, emocionalmente. E, de preferência, no
exato momento em que se é procurado. Isto dá
aos familiares um sentimento de conforto e segurança
. E a você, de ser necessário.
Como
muitos pais e cônjuges que trabalham fora, você
pode ter estado, até agora, mais acessível que
disponível. Na volta ao lar, ao permanecer mais
tempo em casa, com a expectativa de que todos,
ou quase todos eles, estejam junto com você,
você estará mais disponível que acessível. A
famosa situação: você-está-lá-e-ninguém-te-dá-bola!
Cuidado.
Isto pode induzir uma sensação de não ser mais
querido, útil ou necessário. Você pode vir a
se sentir muito carente. E passar a exigir demais
deles, em presença e afeto. Afinal, quem mudou
a rotina foi você e não, eles. Antes de se declarar
um carente convicto verifique se, realmente,
eles estão:
- evitando
você
- falando
ou fazendo grosserias para você
- rindo
de você
- ignorando
suas necessidades
- fazendo
você de "bôbo", ou
- tentando
transformá-lo num mero auxiliar, pouco reconhecido
Ou
se eles estão, simplesmente:
- ocupados
com suas próprias coisas
- desabituados
à sua presença
- desabituados
a conversar com você
- deixando
de perceber o que você precisa,ou
- naturalmente,
tratando-o como a um "igual".
No
primeiro caso há muita agressividade na família,
para o que você deve, também, ter contribuído,
mesmo sem saber, sem ter-se dado conta disso.
No segundo caso, não confunda desatenção e falta
de hábito com desamor. A situação é nova para
todos. O que podemos fazer de positivo é ativar
a nossa capacidade de perceber as coisas com
maior sensibilidade. Se você, ainda, não se
deu conta, eles estão muito assustados! E inseguros.
As
crianças sempre tendem a "acusar" seus pais
por estas situações críticas. Mesmo se "por
fora" eles lhe parecem tranqüilos, como se estivessem
aceitando bem a situação, não se engane: crianças
e jovens não têm a compreensão profunda necessária,
nem – exatamente por isso – a obrigação de "colaborar"
com o papai em crise, sendo mais "bonzinhos"
ou mais "calminhos"...
Em todo caso, você precisa reconquistar
o terreno. Tenha paciência e perseverança.
Todos precisam de um tempo para se adaptar à
nova situação. Reclame menos, observe mais e
ofereça presença e afeto, desinteressadamente.
Sair
(ou estar) com a família é também sair (ou estar)
com cada um em separado.
Uma
das maiores alegrias é estar com a família toda
reunida. Em torno de uma mesa, muita risada,
comida gostosa. Ou abrindo presentes ao pé da
árvore de Natal. Na praia, jogando bola e "fazendo
farofa". Cantando "parabéns a você"...
São
tantas as ocasiões em que cabe todo mundo!
Inclusive ocasiões tristes, como o funeral de
alguém querido, na ante-sala de um centro cirúrgico...
Nessas horas, parece que a presença de cada
um engrandece a força do grupo familiar e aumenta
a sensação de conforto, de ter com quem contar.
Mas...há
outras ocasiões em que "todo mundo junto" não
é uma boa solução. Talvez seja até a pior. Por
exemplo: dar bronca nos quatro filhos ao mesmo
tempo, quando somente dois é que fizeram a bagunça.
E os outros levam, pelo que fizeram anteontem,
ou irão fazer no fim de semana que vem! É fácil
um deles cair na risada e desautorizar todo
o ritual da "bronca".
Outra
situação, não muito recomendável, é quando se
vai tratar de algo íntimo de algum deles, ou
mesmo dos pais, algo que os menores ainda não
estão preparados para entender, nem os maiores
estão preparados para compreender. E, se estão,
não querem tornar a coisa pública e compartilhar!
Há coisas que dizem respeito somente aos pais
e a um dos filhos, não à todos. Muito menos
reunidos, no mesmo momento.
Há
também situações alegres, onde não cabem todos.
Ao escolher o traje de 15 anos da menina. Ou
o terno de casamento do mais velho. Ou ainda
a visita aos tios da mãe...à irmã (chata) do
pai...
Isso
quer dizer que, conviver mais com a
família compreende: a presença
física e a sensibilidade atenta,
para captar quando é hora de se aproximar e
quando é hora de se afastar.
E
compreende também a auto-observação,
que é para saber se, naquele momento,
com a nossa participação ativa estamos, realmente,
contribuindo ou se estamos nos "metendo onde
não fomos chamados".
Há
dois tipos de convivência:
a primaria, quando fazemos
coisas juntos, estamos presentes e acrescentamos
valor e conhecimento aos momentos vividos em
comum. E a secundária, quando
mesmo à distância, nos fazemos presentes, através
de ajudar cuidar de algo para ou por alguém,
dar uma palavra de estímulo, por carta ou telefone,
e quando não permitimos que alguém agrida, ameace
ou desqualifique um dos nossos.
Há
momentos excelentes para que todos compartilhem
da mesma experiência. Não menos excelente é
estar, também, um tempo com cada um em separado,
curtindo a sua individualidade.
Passeios são muito prazerosos quando
satisfazem a todos.
Satisfazer
a todos não quer dizer satisfazer a todos na
mesma medida.
Um pode ficar "super feliz" e outro, relativamente
indiferente, ou impaciente. O que não significa
permissão para ficar mal-humorado, de cara amarrada,
reclamando o tempo todo. Melhor seria não sair
junto, ao menos naquela hora. Ou naquele dia.
Quando
os filhos já são crescidos, casados, têm seus
próprios filhos, há - no mínimo - dois
problemas : um é econômico, outro é operacional.
Filhos estão sempre esperando que o pai "banque"
tudo. (Se o pai pagar, ah, então tudo bem, vamos
ao restaurante que ele indicou. Mas se os filhos
também "põem a mão no bolso", essa é a hora
das discussões! Um quer isso, outro quer aquilo,
um fica emburrado, outro vai embora...). Perde-se
muito tempo até conciliar os gostos e preferências.
Se é que não desistem do programa!
Quando
se tem filhos pequenos, até a adolescência,
se decide por eles e eles acompanham os pais,
sem nem questionar muito para aonde se dirigem.
Na adolescência, quando começam a aparecer as
individualidades e as vontades, conciliar os
programas torna-se uma arte. Quando eles constituem
seus próprios lares, então, quando chegam
"os agregados", respeitá-los em seus gostos
e temperamentos, é tarefa de gigante!
Pior
ainda se filhos e cunhados não se entendem e
nem se suportam. Propor um passeio em
comum é se arriscar a ouvir solenes desaforos.
Muitas vezes pais mais velhos têm que se desdobrar,
porque não conseguem colocar todos os filhos
à mesma mesa. Alguns, nem na mesma sala...
Isso
não quer dizer que os pais "erraram" na educação,
que a desavença familiar é o atestado de seu
fracasso como pais. Mas que as desavenças familiares,
a quantidade de inveja, ciúmes, intrigas, competição
é alta demais, levando à desagregação e enfraquecimento
dos vínculos e confiança mútua. Mais do que
dificuldade em ver "todo mundo feliz por estar
passeando junto", trata-se de um problema sério
da família, que pode precisar, até mesmo, de
ajuda dos de fora, ou ainda do auxílio de um
profissional.
Se
o desentendimento é só entre o casal, um quer
sair, o outro só quer ficar em casa, ou ficar
por ali mesmo, os filhos não têm que participar
do (des)entendimento. Um conselho aqui, outro
lá, sim, mas sem julgar nem tomar partido. Filhos
não podem, nem devem, intervir como se fossem
os donos da verdade, ou juízes de um tribunal.
Além de tudo, eles se afastam, quando os pais
se dão mal. Ninguém gosta de estar perto de
gente que não se entende, mesmo sendo os próprios
pais.
Concessões
são necessárias de parte à parte. Não estamos
mais no tempo em que só uma parte cedia enquanto
a outra impunha a sua vontade. Agora, a palavra
de ordem é respeito às individualidades e negociação
de vontades.
Sair
com a família é estar com eles.
Mais
importante do que o programa planejado
é estar junto. Há momentos
em que se idealiza algo. Uma viagem, por exemplo.
Uma viagem onde todos vão sair, fazer o que
gostam, se divertir. Só que no dia marcado...
o carro quebra. Ou vira o tempo, ou alguém adoece,
se envolve em outro compromisso, E você... se
sente passado para trás. Desconsiderado. E fica
amuado, se fecha e sai de cena. Se tranca no
quarto, ou sai para rua. E só volta de noite,
para "a hora do cansaço e o soninho na
frente da televisão."
Você
chega e encontra restos de comida à mesa, a
cozinha suja e as almofadas reviradas. O que
aconteceu? ! Você conclui que houve uma festa
na sua ausência, para a qual nem foi convidado.
E pior, foi você que pagou, porque sai
tudo (ou quase tudo) do seu bolso. Se sente
deprimido e raivoso. Se esquece que foi você
mesmo quem virou as costas e não disse à que
horas voltava.
Os
filhos não esperam por você, e a vida de sua
esposa continua...
É,
você se sente sobrando. Quase indesejável. E
ainda tem que ouvir as reclamações que fazem
de você, do seu jeito de ser, de falar as coisas,
de cobrar demais!
O
sentimento de solidão aumenta e você tem que
procurar alternativas para as suas carências.
Trabalho, para mergulhar nele e esquecer das
dores? Pois é, justamente, o que lhe está faltando!
Ocupação. Com o que se distrair? Você nem sabe
direito o que quer fazer... Alguém com quem
conversar? Às vezes é difícil até com
a própria esposa. Amigos? É mais difícil ainda
ter que se abrir...
De
repente você se descobre sem muita habilidade
para se relacionar. Você sabe muito bem o que
é se responsabilizar pela família, sustentar,
comandar, zelar. O que você ainda não sabe é
compartilhar. Estar junto, simplesmente. Ouvir.
Trocar idéias, ouvindo mais o que eles têm a
dizer, do que aquilo que você desejaria escutar.
Você
ainda não descobriu como é confortável ser apenas
um dentre eles. Não o principal.
Nem o incompreendido. Apenas um igual. Mais
velho, mais experiente. Aquela pessoa de quem
todos esperam que seja maior compreensão e paciência.
Que saiba decidir junto. Que saiba delegar.
Sim, em família também se pode delegar.
Há
quem pense que delegar é perder controle e poder.
Não. Delegar é fazer com que o outro desenvolva
sua próprias aptidões e o gosto de corresponder.
Responsabilidades não se delegam. Tarefas, sim.
Mas aquilo que é resolvido em conjunto, é mais
forte e poderoso que a própria lei. Isso é estar
e sair com eles.