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ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL

 
VOLTA AO LAR
 
Por Ana Perwin Fraiman
 

Um dos possíveis ganhos de quem está fora do mercado de trabalho, num processo de outplacement, ou buscando por si próprio outras oportunidades, é "ter mais tempo para conviver mais com a família". Só que as coisas não são tão simples assim... A família pode não estar preparada para esta convivência mais estreita.

Se você gosta de desafios com "d" maiúsculo, este é um deles. Se para algumas pessoas este será um tempo a ser lembrado, futuramente, com carinho, pelos momentos compartilhados, para outras pode tornar-se um tormento, a ser o quanto antes ultrapassado.

Com cuidados, a maioria pode obter muito  êxito em mais este empreendimento. É bem a hora de ser sensível e delicado, além de razoável. E é muito válido saber de algumas coisas. As próximas dicas podem ser de muita utilidade.

Estar acessível é diferente de estar disponível.
           
"Estar acessível " significa dar chances de ser encontrado e, de algum modo, procurar ouvir o que os familiares precisam: alguma ajuda, algum incentivo, algum elogio. Isso não precisa acontecer exatamente na hora em que se é buscado, mas eles têm que saber que você logo irá responder aos chamados. Que você demonstra interesse, mesmo que naquele momento não possa estar presente. Isto dá a eles um sentimento de proteção. E a você, de utilidade.

"Estar disponível" significa estar presente, se não física, emocionalmente. E, de preferência, no exato momento em que se é procurado. Isto dá aos familiares um sentimento de conforto e segurança . E a você, de ser necessário.

Como muitos pais e cônjuges que trabalham fora, você pode ter estado, até agora, mais acessível que disponível. Na volta ao lar, ao permanecer mais tempo em casa, com a expectativa de que todos, ou quase todos eles, estejam junto com você, você estará mais disponível que acessível. A famosa situação: você-está-lá-e-ninguém-te-dá-bola!

Cuidado. Isto pode induzir uma sensação de não ser mais querido, útil ou necessário. Você pode vir a se sentir muito carente. E passar a exigir demais deles, em presença e afeto. Afinal, quem mudou a rotina foi você e não, eles. Antes de se declarar um carente convicto verifique se, realmente, eles estão:

  • evitando você
  • falando ou fazendo grosserias para você
  • rindo de você
  • ignorando suas necessidades
  • fazendo você de "bôbo", ou
  • tentando transformá-lo num mero auxiliar, pouco reconhecido

Ou se eles  estão, simplesmente:

  • ocupados com suas próprias coisas
  • desabituados à sua presença
  • desabituados a conversar com você
  • deixando de perceber o que você precisa,ou
  • naturalmente, tratando-o como a um "igual".

No primeiro caso há muita agressividade na família, para o que você deve, também, ter contribuído, mesmo sem saber, sem ter-se dado conta disso. No segundo caso, não confunda desatenção e falta de hábito com desamor. A situação é nova para todos. O que podemos fazer de positivo é ativar a nossa capacidade de perceber as coisas com maior sensibilidade. Se você, ainda, não se deu conta, eles estão muito assustados! E inseguros.

As crianças sempre tendem a "acusar" seus pais por estas situações críticas. Mesmo se "por fora" eles lhe parecem tranqüilos, como se estivessem aceitando bem a situação, não se engane: crianças e jovens não têm a compreensão profunda necessária, nem – exatamente por isso – a obrigação de "colaborar" com o papai em crise, sendo mais "bonzinhos" ou mais "calminhos"...
Em todo caso, você precisa reconquistar o terreno. Tenha paciência e perseverança. Todos precisam de um tempo para se adaptar à nova situação. Reclame menos, observe mais e ofereça presença e afeto, desinteressadamente.
           

Sair (ou estar) com a família é também sair (ou estar) com cada um em separado.

Uma das maiores alegrias é estar com a família toda reunida. Em torno de uma mesa, muita risada, comida gostosa. Ou abrindo presentes ao pé da árvore de Natal. Na praia, jogando bola e "fazendo farofa". Cantando "parabéns a você"...

São tantas as ocasiões em que cabe todo mundo! Inclusive ocasiões tristes, como o funeral de alguém querido, na ante-sala de um centro cirúrgico... Nessas horas, parece que a presença de cada um engrandece a força do grupo familiar e aumenta a sensação de conforto, de ter com quem contar.

Mas...há outras ocasiões em que "todo mundo junto" não é uma boa solução. Talvez seja até a pior. Por exemplo: dar bronca nos quatro filhos ao mesmo tempo, quando somente dois é que fizeram a bagunça. E os outros levam, pelo que fizeram anteontem, ou irão fazer no fim de semana que vem! É fácil um deles cair na risada e desautorizar todo o ritual da "bronca".

Outra situação, não muito recomendável, é quando se vai tratar de algo íntimo de algum deles, ou mesmo dos pais, algo que os menores ainda não estão preparados para entender, nem os maiores estão preparados para compreender. E, se estão, não querem tornar a coisa pública e compartilhar! Há coisas que dizem respeito somente aos pais e a um dos filhos, não à todos. Muito menos reunidos, no mesmo momento.

Há também situações alegres, onde não cabem todos. Ao escolher o traje de 15 anos da menina. Ou o terno de casamento do mais velho. Ou ainda a visita aos tios da mãe...à irmã (chata) do pai...

Isso quer dizer que, conviver mais com a família compreende: a presença física e a sensibilidade atenta, para captar quando é hora de se aproximar e quando é hora de se afastar.

E compreende também a auto-observação, que é para saber se, naquele momento, com a nossa participação ativa estamos, realmente, contribuindo ou se estamos nos "metendo onde não fomos chamados".

dois tipos de convivência: a primaria, quando fazemos coisas juntos, estamos presentes e acrescentamos valor e conhecimento aos momentos vividos em comum. E a secundária, quando mesmo à distância, nos fazemos presentes, através de ajudar cuidar de algo para ou por alguém, dar uma palavra de estímulo, por carta ou telefone, e quando não permitimos que alguém agrida, ameace ou desqualifique um dos nossos.

Há momentos excelentes para que todos compartilhem da mesma experiência. Não menos excelente é estar, também, um tempo com cada um em separado, curtindo a sua individualidade.

Passeios são muito prazerosos quando satisfazem a todos.

Satisfazer a todos não quer dizer satisfazer a todos na mesma medida.
 Um pode ficar "super feliz" e outro, relativamente indiferente, ou impaciente. O que não significa permissão para ficar mal-humorado, de cara amarrada, reclamando o tempo todo. Melhor seria não sair junto, ao menos naquela hora. Ou naquele dia.

Quando os filhos já são crescidos, casados, têm seus próprios filhos, há  - no mínimo - dois problemas : um é econômico, outro é operacional. Filhos estão sempre esperando que o pai "banque" tudo. (Se o pai pagar, ah, então tudo bem, vamos ao restaurante que ele indicou. Mas se os filhos também "põem a mão no bolso", essa é a hora das discussões! Um quer isso, outro quer aquilo, um fica emburrado, outro vai embora...). Perde-se muito tempo até conciliar os gostos e preferências. Se é que não desistem do programa!

Quando se tem filhos pequenos, até a adolescência, se decide por eles e eles acompanham os pais, sem nem questionar muito para aonde se dirigem. Na adolescência, quando começam a aparecer as individualidades e as vontades, conciliar os programas torna-se uma arte. Quando eles constituem seus próprios lares, então, quando  chegam "os agregados", respeitá-los em seus gostos e temperamentos, é tarefa de gigante!

Pior ainda se filhos e cunhados não se entendem e nem se suportam. Propor um passeio em  comum é se arriscar a ouvir solenes desaforos. Muitas vezes pais mais velhos têm que se desdobrar, porque não conseguem colocar todos os filhos à mesma mesa. Alguns, nem na mesma sala...

Isso não quer dizer que os pais "erraram" na educação, que a desavença familiar é o atestado de seu fracasso como pais. Mas que as desavenças familiares, a quantidade de inveja, ciúmes, intrigas, competição é alta demais, levando à desagregação e enfraquecimento dos vínculos e confiança mútua. Mais do que dificuldade em ver "todo mundo feliz por estar passeando junto", trata-se de um problema sério da família, que pode precisar, até mesmo, de ajuda dos de fora, ou ainda do auxílio de um profissional.

Se o desentendimento é só entre o casal, um quer sair, o outro só quer ficar em casa, ou ficar por ali mesmo, os filhos não têm que participar do (des)entendimento. Um conselho aqui, outro lá, sim, mas sem julgar nem tomar partido. Filhos não podem, nem devem, intervir como se fossem os donos da verdade, ou juízes de um tribunal. Além de tudo, eles se afastam, quando os pais se dão mal. Ninguém gosta de estar perto de gente que não se entende, mesmo sendo os próprios pais.

Concessões são necessárias de parte à parte. Não estamos mais no tempo em que só uma parte cedia enquanto a outra impunha a sua vontade. Agora, a palavra de ordem é respeito às individualidades e negociação de vontades.

Sair com a família é estar com eles.

Mais importante do que o programa planejado é estar junto. Há momentos em que se idealiza algo. Uma viagem, por exemplo. Uma viagem onde todos vão sair, fazer o que gostam, se divertir. Só que no dia marcado... o carro quebra. Ou vira o tempo, ou alguém adoece, se envolve em outro compromisso, E você... se sente passado para trás. Desconsiderado. E fica amuado, se fecha e sai de cena. Se tranca no quarto, ou sai para rua. E só volta de noite, para "a  hora do cansaço e o soninho na frente da televisão."

Você chega e encontra restos de comida à mesa, a cozinha suja e as almofadas reviradas. O que aconteceu? ! Você conclui que houve uma festa na sua ausência, para a qual nem foi convidado. E pior, foi você que pagou, porque sai  tudo (ou quase tudo) do seu bolso. Se sente deprimido e raivoso. Se esquece que foi você mesmo quem virou as costas e não disse à que horas voltava.

Os filhos não esperam por você, e a vida de sua esposa continua...

É, você se sente sobrando. Quase indesejável. E ainda tem que ouvir as reclamações que fazem de você, do seu jeito de ser, de falar as coisas, de cobrar demais!

O sentimento de solidão aumenta e você tem que procurar alternativas para as suas carências. Trabalho, para mergulhar nele e esquecer das dores? Pois é, justamente, o que lhe está faltando! Ocupação. Com o que se distrair? Você nem sabe direito o que quer fazer... Alguém com quem conversar?  Às vezes é difícil até com a própria esposa. Amigos? É mais difícil ainda ter que se abrir...

De repente você se descobre sem muita habilidade para se relacionar. Você sabe muito bem o que é se responsabilizar pela família, sustentar, comandar, zelar. O que você ainda não sabe é compartilhar. Estar junto, simplesmente. Ouvir. Trocar idéias, ouvindo mais o que eles têm a dizer, do que aquilo que você desejaria escutar.

Você ainda não descobriu como é confortável ser apenas um dentre eles. Não o principal. Nem o incompreendido. Apenas um igual. Mais velho, mais experiente. Aquela pessoa de quem todos esperam que seja maior compreensão e paciência. Que saiba decidir junto. Que saiba delegar. Sim, em família também se pode delegar.

Há quem pense que delegar é perder controle e poder. Não. Delegar é fazer com que o outro desenvolva sua próprias aptidões e o gosto de corresponder.  Responsabilidades não se delegam. Tarefas, sim. Mas aquilo que é resolvido em conjunto, é mais forte e poderoso que a própria lei. Isso é estar e sair com eles.

 
 

 
 
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